Eu não me lembro de ter tido heróis em minha tenra infância. Certo, sem contar pai e mãe, porque heróis são geralmente aqueles entes sobrenaturais, mas que, de qualquer sorte, agem em perfeita conformidade com nossas expectativas e nunca nos decepcionam. Os americanos costumam ser muito bons em criar em heróis, em todos aqueles desenhos animados, e histórias fantásticas. Talvez porque sonhem com a concretização de um hipotético e inalcançável superego, como símbolo da mais perfeita ideia e de tudo o que nos remete a um modelo utópico de sociedade, de ser humano, de mundo, de todo. E de repente todos nós sejamos assim também, então deixemos os americanos de lado.
Pensando bem, o Papai Noel, sim, tinha uma aura um tanto diferenciada de tudo o que eu havia visto. O de verdade, aquele que nos trazia os presentes na época de Natal, esse eu nunca cheguei a ver. Os que eu via, e eu fazia questão de dizer que eram inventados, de mentira, eram aqueles com máscaras assustadoras, sem a barba branquinha de aspecto nórdico, tampouco o olhar doce e acalentador que deveria ter o MEU Papai Noel, ou então aquela barriguinha levemente, digo, consideravelmente saliente, que me fazia crer que, como bom velhinho residente nas gélidas montanhas, deveria estar sempre bem alimentado, fosse para estar presente, junto aos pequenos, ou por eles ser alimentado cada vez que passasse pela casa dos menores, ou dos grandes mesmo, porque até então, pra mim, o Papai Noel era de verdade. E mais: era eterno.
O máximo da realidade utópica que chegou ao meu conhecimento foi um Papai Noel que certa vez conheci numa antiga loja da cidade, sempre procurada por seus artefatos em couro, produtos esportivos, e mais um tanto de tudo um pouco, daquelas lojas que insistiam em sobreviver sem especialidade, vendendo de tudo, o que era, realmente, um universo imenso a ser desvendado. Cada passeio pela loja, ainda que esta não fosse a maior da cidade, era um evento. E foi num desses eventos que conheci um Papai Noel que me pareceu de verdade. Ele era gordinho. E lindo. E tinha a fala mansa e rosto e barba de verdade. Ele me deu uma bala. E eu, com meus oito anos de idade, aproximadamente, ainda muito desconfiada da real condição do bom velhinho, resolvi perguntar onde ele morava, na vã intenção de, quem sabe, conhecer a famosa cápsula que protegia tamanho segredo, sempre escondido de toda e qualquer criança. Ele me respondeu que morava nas montanhas.
Desde que eu me conheço por gente, eu nunca fui muito rápida para dar respostas, prontas ou pensadas no instante do constrangimento, da alegria, ou qualquer que fosse o sentimento. E eu também não fui naquele instante. Minha conversa com o Papai Noel se estancou por ali, sabe-se lá por que motivo. Eu havia saído do colo do Papai Noel. Diga-se, de passagem, que naquela época nem se cogitava a hipótese de pedofilia; primeiro, porque sempre fui ingênua; segundo, porque essas coisas nem estavam na moda, e a real é que o velhinho era muito do bem, então não havia por que se preocupar. Mas eu já estava a caminho de casa, e fiquei refletindo sobre a resposta vaga que eu havia obtido. E a pergunta que não queria calar era: mas em que montanhas, afinal, ele mora?
O tempo passou. Dentre várias dessas reflexões, corroboradas por pseudodepoimentos de coleguinhas céticos e sem graça de quarta série, que acabavam com a minha ilusão acerca da existência de Papai Noel, mais as descobertas de adesivos e papéis de presentes usados pelo velhinho, encontrados nas gavetas do quarto de meus pais, era chegado o dia em que todas as verdades seriam reveladas.
Estávamos eu, minha irmã, meus pais e minha irmã mais velha. E então o pai resolveu contar que... como posso dizer... Papai Noel não existia. Eu não lembro como foi que chegamos neste assunto, e como ele foi abordado ou fundamentado, mas sei que, na hora, eu pensei: como podem dizer que ele não existe se também eles, meus pais, nunca haviam conhecido o Papai Noel de verdade? Foi um choque. Sem exageros, mas, em meus pensamentos, eu quase poderia fugir de casa, pelo fato de terem nos mentido, durante todo aquele tempo, sobre a existência do Papai Noel, por nos terem feito de bobas, ou, quem sabe, por terem acabado com a nossa ilusão sobre o nosso herói. E a dor que era minha eu já tinha como nossa, como minha e da minha irmã do meio. Sim, porque a mais velha, cria eu, já sabia de tudo. De qualquer forma, eu não poderia fugir de casa. Era financeiramente inviável, e só funcionava nas estórias de Hollywood. Eu precisava de algo mais incisivo, que os afetasse de forma contundente, com base na razão, ao contrário de todo drama e histerismo controlado do pensamento daquele momento. Isso tudo porque eu sentia minha honra maculada e precisava, de alguma forma, colocar toda a minha decepção para fora. Que exagero, penso eu sobre isso hoje em dia, mas aquele era meu momento de revolução. Eu pensei então numa solução drástica. Juro. Pensei em questioná-los também sobre a existência de Deus, que eu sabia ser questão muito mais séria e velada que a de Papai Noel. Mas desisti. Eu sempre soube, ou julgava saber dos meus limites, e principalmente, dos de meus pais e seus credos.
O Papai Noel sempre chegava na época mais feliz do ano. Ele nos trazia presentes. Ele era o símbolo do nosso exemplo como boas filhas, boas estudantes, boas pessoas. O Papai Noel nos reconhecia como gente do bem, como gente abençoada, ou o que quer que isso significasse. Ele também levava presente aos pobres, conforme narravam as belíssimas canções da época, da sempre e eterna noite feliz. Ele fazia a nossa casa brilhar com pequenos enfeites que eram sorrateiramente espalhados pelo ambiente ainda durante o advento. Ele unia a família na oração, na troca de presentes, na ceia, nos telefonemas aos familiares distantes, na música entoada pelos nossos instrumentos ao menino Jesus, e sempre fazia do fim de ano uma época de trocas e bons fluidos. Papai Noel era o meu herói.
E depois de um tempo a gente entende melhor o que significa um herói, e o que significa perdê-lo. Em termos, eu tive sorte, porque meu herói nem era de verdade (não?!). Mas há quem tenha heróis reais, de carne e osso, e eles nem sempre são perfeitos. Eles nos decepcionam, eles acabam com nossos ideais e nos mostram que a realidade é mais real que os sonhos, e que nem sempre todos ganham presentes por serem pessoas do bem, e que às vezes, mesmo quem é do bem, nada recebe em troca, ou ainda que não se trate de troca, nem sempre se ganha.
E lá se vai mais um herói, seja de pedra, de carne e osso, ou de areia, levado pelo vento. E lá se desconstrói mais um ideal, com base na mais sólida realidade. Entretanto, eu não me surpreenderia se, em algum momento, em algum lugar, eu avistasse alguma placa com os seguintes dizeres: “procura-se um herói”. Nem que fosse para alimentar a alma dos pequeninos. Ou a ânsia dos grandes.