Morei num pequeno apartamento, numa grande, porém estreita rua. Minha capital se restringia ao Centro, e minha Universidade, a Senhor dos Passos. Andei a passos curtos e rápidos, entre lombas ascendentes e descendentes, desviando de transeuntes mais perdidos que eu.
Almocei torrada com suco de laranja, prato feito com Coca-Cola, e xis salada com Ice Tea nos melhores botecos da minha Capital. Provei o R.U. no meu penúltimo semestre de faculdade, com os bixos do curso de Música, e fiquei maravilhada com a existência humana.
Para a janta, o pedido à atendente da padaria era sempre o mesmo: dois cacetinhos e uma fatia de presunto. As fatias são grandes, e eu prefiro dividi-las ao meio. Queijo? Não me faz muito bem. Ainda, vez ou outra eu passava no supermercado e incluía no cardápio um tomate, no máximo dois.
Num belo dia, um rapaz me acompanhou até em casa, com o braço sobre meus ombros, e beijos estalados na bochecha. Antes, passei na padaria. O mesmo pedido. No caminho para casa, um pequeno beijo roubado em pleno canteiro da avenida que separava a minha quadra da quadra da padaria. Um frio na barriga. Depois, um beijo no pescoço, outro quase na nuca. Não era erotismo, mas prazer, no sentido mais puro da palavra. Despedimo-nos. Acenamos. Subi para meu apartamento. Falamo-nos ao telefone. Despedimo-nos novamente, com um beijo. Liguei para minha melhor amiga. Contei a novidade, extasiada. Jantei. Fui dormir. Acordei assustada, dando-me um tapa na testa. Levantei. Tomei banho. Fui lavar roupas. O telefone tocou. Era o rapaz me convidando para almoçar. Eu precisava esperar a máquina parar de trabalhar. Parou. Desci. Entrei no carro e lhe dei um beijo. Não senti fome. Não almoçamos. Andamos de mãos dadas. Matei a primeira aula. Cheguei atrasada na segunda.
Não desgrudei mais do moço. E eu nunca mais coube em mim, nem no apartamento. Fiquei grande demais. Mas não abandonei os miúdos: tornaram-se miúdos nostálgicos.