Armando, terno Armando, brasileiro, herdeiro, casado, apaixonado, do lar, capacho, que num belo dia resolveu mudar. Mas antes da mudança, vamos falar sobre Armando, cujo perfil parece absurdamente inexistente. Mas é real.
Armando vinha de uma família de bom coração. Foi criado nesse ambiente, e desta forma formou sua personalidade. Por sorte, além de bom coração, era dotado de um exemplar biotipo, o que atraía a atenção das meninas da cidade desde sempre. Morava no interior e, ao concluir o Ensino Médio, foi enviado para a capital para continuar os estudos. Meses antes de concluir a faculdade, recebeu a triste notícia de que seus pais, já idosos, haviam falecido durante uma festa que ocorreu na cidade. A dança, no baile, exigiu muito dos já cansados, porém bondosos corações, e acabou por levar o casal a óbito, ambos, ao mesmo tempo, no mesmo lugar. Coisa de destino.
Após a morte dos pais, Armando, filho único, tendo já concluído a faculdade, resolveu retornar ao interior para tentar manter a rotina que tinham seus pais. Tentou, durante um ano, mas as luzes e o movimento da capital pareciam lhe chamar de volta, e Armando, agora com uma herança sem precedentes, não importando se tinha ou não um emprego, resolveu voltar à capital.
Armando comparecia às danceterias mais frequentadas da cidade. E numa dessas incontáveis noites, conheceu Laura, que de santa nada tinha. Mas o pior, que não foi dito até agora, é que Armando, mesmo lindo, inteligente e de bom coração, era ingênuo nas questões sentimentais. Muito ingênuo.
Laura, loura, era uma fisioterapeuta com boa formação, mais física que curricular. Apesar de ser relativamente bem sucedida no trabalho, obtinha maior êxito nas investidas durante a noite. Estava solteira, por opção, mas resolveu alterar seu estado civil após conhecer Armando.
Namoraram, noivaram e casaram.
Armando, apaixonadíssimo, sem preocupar-se com trabalho, afinal, renda não lhe faltava, dedicava-se totalmente ao lar. Preparava jantares para Laura, levava a cadelinha Lucha, uma poodle branca, para passear, deixava tudo pronto, limpo e cheiroso para a amabilíssima esposa, que frequentemente fazia hora extra. Laura chegava tarde e, muito embora tinha casa, comida e roupa lavada, desprezava o dedicado marido, mas nunca os presentes de bom gosto que dele recebia.
Ele paciente, esperançoso, de bom coração, não queria ver o que todos viam, mas um dia se cansou das constantes saídas de Laura, principalmente à noite, quando ela então retornava à casa com o cabelo bagunçado e a maquiagem borrada, e com um perfume cujo olor passava longe daqueles presentes dados a ela por ele, escolhidos meticulosa e delicadamente com todo amor que um marido apaixonado dedica à esposa.
Os eventos culminaram numa noite em que ele a esperava com um jantar especial, mais especial que nunca, e ela, alegando que não conseguiria chegar em casa a tempo, pois havia aparecido um caso especial na clínica onde trabalhava, ligou avisando que teria de ficar até mais tarde. Ele, preocupado e dedicado, dirigia-se à referida clínica quando, a caminho, por acaso, avistou o carro de Laura saindo de um local que cobrava estadia por curta duração. Ela na direção e, ao seu lado, um homem.
Sabe-se que Armando era incapaz de fazer mal a uma mosca, e não conseguia ofender, física ou moralmente, quem quer que fosse. Um palavrão nunca havia sido pronunciado por ele. Mas seu coração estava cheio de rancor, ciúmes, uma coisa inominada, indescritível, que não permitiu que Armando se mantivesse naquele padrão de comportamento pacífico. Mas ele não sabia como agir, já que era a primeira vez que ele se deparava com uma situação como aquela.
Armando pensou. Refletiu. Esquematizou. E refletiu novamente sobre a forma com a qual ele finalmente poderia se vingar de toda injustiça e ingratidão de Laura. Ele precisava extravasar. Ela recém havia saído para trabalhar, e era hora do passeio matinal de Lucha.
Um dia comum, como qualquer outro, e Armando saiu para passear com Lucha. Aproveitou para levar a cadelinha para tomar banho e fazer a revisão com a veterinária. Ainda na Pet Shop, comprou um perfume barato para Lucha. Deu mais uma voltinha pelo bairro e entrou numa loja de perfumes importados, comprando um lindo exemplar de perfume francês, numa linda embalagem, para a querida Laura.
Justificava-se mentalmente, desculpava-se com Lucha, dizendo que não era nada pessoal, mas entendia ser necessário o que estava por vir. Precisava se afirmar, agir como homem, talvez pela primeira vez na vida. Faria o que nunca havia feito. Era a vingança sonhada.
Foi então que, tomado de muita coragem, elaborou o preparo: colocou o perfume de Lucha na embalagem do perfume francês de Laura. Faltavam cinco minutos para Laura chegar. E ele a esperava com o jantar pronto. E um presente.
Laura chegou cansada naquele dia, não tão tarde como de costume. Cumprimentou-o normalmente ao chegar em casa. Lavou as mãos e dirigia-se à sala de jantar quando recebeu o presente de Armando. Seus olhos brilharam. Ela agradeceu, sorridente, pois sabia que era mais um daqueles presentes que ela adorava. Então desfez lentamente o tope em fita vermelha que enlaçava o pacote. Abriu o mesmo com cuidado para não rasgar o lindo papel dourado que envolvia a caixinha do presente. Leu o rótulo. Era francês. Ela sonhou com os olhos e suspirou. Retirou o vidro do perfume de dentro da caixa e, enquanto abria lentamente a tampa delicada do frasco para apropriar-se do perfume que passaria a ser sua mais nova marca registrada de personalidade, Armando nervoso, mentalmente pedia perdão aos céus e a Lucha, pois a hora era aquela. Foi o tempo de Laura aproximar a narina do frasco e, com visível decepção, afastá-lo. Só não recusou porque era 'francês'. Imediatamente retirou-se da sala e foi ao banheiro para tentar desentranhar de si aquele cheiro que lhe havia enganado. Imediata e mentalmente Armando rogou perdão a Lucha, afirmando que qualquer depreciação de sua raça era necessária naquele momento, pois ele seria desrespeitoso como numa havia sido. Precisava extravasar. Armando conseguiu emitir, em sussurrado e baixo tom, direcionando as palavras à Laura para que, de certa forma não as ouvisse: "sua cadela".
Vingou-se, finalmente. Depois dirigiu-se à mesa e esperou Laura para jantar.