quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Sobre "nós, efêmeros"

Olha-me nos olhos,
E terei em ti minha morada.
Pois em tuas breves passagens
Eternizarei minha existência.

Ver-te-ás em mim,
E eu, em ti.
E nesse espelho d'alma
Terás me lido o suficiente
Para que não passemos despercebidos
Eu, por ti. Tu, por mim.

E haverei de ficar aqui,
Sempre à tua espera,
Até que outro, não sem pesar,
Finalmente ocupe o meu lugar.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Sobre lembranças e agendas

Todos os anos, no Natal, ganhávamos do papai (Noel) uma agenda, que seria utilizada no ano seguinte. Não eram agendas propriamente ditas, pois na maioria das vezes, os cadernos de anotações sem datas eram os mais bonitos e ilustrados e, portanto, os escolhidos. No mais, quando eram, de fato, agendas, marcávamos as datas inesquecíveis com um círculo na volta: aniversário dos membros do núcleo familiar, além do dia de Natal e Páscoa, sinônimo de festa, chocolate e presentes.

O HD com considerável espaço disponível na memória, típico de infâncias dignas, guardava datas de aniversário, marcas e modelos de veículos automotores e outras tantas coisas obsoletas. Eu decorei, na época, a data do meu batizado, e nunca mais esqueci, assim como o telefone fixo da casa da minha melhor amiga da primeira série do ensino fundamental.

As agendas eram desnecessárias. O compromisso era brincadeira com os amigos, as aulas de teclado, flauta, violino, conjunto instrumental, que ocorriam nas sagradas tardes durante a semana.

As agendas serviam para colar adesivos, figurinhas, adesivos d’água, ou imitar as frases de efeito encontradas na agenda da irmã mais velha, então adolescente, pouco importando o significado delas.
Com o tempo, as agendas se tornaram diários, com relatos ingênuos de paixões platônicas e ciúmes não justificáveis; passagens de músicas de Renato Russo, e outras frases de efeito que começavam a fazer sentido.

Mas ainda não havia compromisso ou responsabilidade. As datas comemorativas eram as de aniversário, mas incluía-se a data em que houve uma primeira troca de olhar potencial com o menino adorável.

Em dado momento, comecei a registrar os compromissos diretamente na folha de calendário, pois os diários já demandavam muito trabalho. Provas de proficiência, exames médicos, apresentações do grupo vocal, da orquestra, e por aí iam os compromissos. Os aniversários eram sempre lembrados, motivo óbvio que, por assim ser, não mais eram marcados na agenda ou no calendário, a menos que houvesse sido organizada uma festa ou coisa do tipo.

A agenda voltou à ativa na época da faculdade. Muitos trabalhos, provas, diversas datas que não poderiam ser esquecidas. E hoje, no trabalho, utilizo a agenda para não me esquecer de realizar esta ou aquela atividade, ou para lembrar o que ficou pendente, e qual a data para uma possível resolução.

As datas de aniversário continuam inesquecíveis. Não saiu do HD o telefone da melhor amiga de 1990, ou a data do meu batizado. Depois de já passados mais de 10 anos de convivência, tento guardar os aniversários dos cunhados, mas acabo lembrando só do mês, e chuto uma data com margem de erro de quatro dias para mais ou para menos... Ali, por ali. Por outro lado, alguns períodos são lembrados mensalmente, pois invariavelmente seu médico ginecologista haverá de lhe perguntar sobre ele.

Mas também há datas e dias que eu não desejei que existissem, e mesmo que eu não as tenha marcado com um círculo na agenda, elas se sobressaem: são os dias de perda, de lembrança, de saudade. Dias de lembrar o toque dos braços, em omoplatas, em apertados abraços. Dias de palavras gentis, sorrisos amáveis e conselhos sábios. Dias que encerraram ciclos e iniciaram outros. Dias que mal iniciaram na madrugada, com telefonemas desconcertantes e, apesar de seguirem ensolarados, sobre os mesmos pairam cinzas nuvens até hoje.

Esqueço-me de pagar a mensalidade da escola do meu filho, e no dia seguinte, já são mais 10 reais de multa. Já quando me esqueço de pagar a fatura de telefone celular, não me repreendo tanto. Essas contas, dívidas, estão vivas, mas delas me esqueço. Por outro lado, me lembro, sem esquecer, dos que não estão mais entre nós, talvez reforçando o sentido da vida - esta sempre tão frágil, tão efêmera.

Não são as datas que importam, mas o que elas significam. Lembremo-nos da vida, do amor, dos sentimentos que permanecem, independentemente da condição existencial. Lembremo-nos dos aniversários como a dádiva da vida, e da morte como o presente que, por assim ser, virou passado, sem, no entanto, duvidar da sua existência, que marcou vidas, agendas, e virou lembrança. 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Sobre a partida, ou volta pra casa



Azuis e brilhantes como nunca: assim se revelaram seus olhos um dia antes do derradeiro. Antes escondidos atrás de óculos, finalmente puderam abandonar este objeto ora obsoleto para mostrar toda a vida que se escondia ali dentro, apesar do corpo já comprometido.

O pai queria voltar pra casa, mas sabia que não seria naquele dia. Então na madrugada que se seguiu foi conhecer o lado de lá, ou, como dizem outros, finalmente voltou pra casa.

Adeus confusão mental. Adeus cirurgias, procedimentos, idas e vindas de hospital e UTI, septicemia, infecções, pneumopatia, neoplasia no sistema nervoso central e todas essas e outras expressões que despertaram horror nos últimos 3 meses.

Mas aqueles olhos vivos me enganaram. Pensei que deixariam vivê-lo um tanto mais, apesar do tratamento invasivo que logo teria de encarar. Pois foram 80 anos muito bem vividos, apesar dos últimos 3 meses.

Ouvi, então, quando recebemos familiares e amigos para a despedida, que sempre o viam fazendo seu exercício físico diário: as caminhadas nas ruas da cidade, sempre focado, mas com o sorriso recíproco a quem por ele passava.

O pai tinha suas obsessões com arquivos de fotos, músicas, árvore genealógica e verificação da pressão arterial.

Marido, pai, avô, doce, bondoso, honesto, responsável e de conduta exemplar, cuja oportunidade que recebemos de com ele conviver só podemos agradecer.

No Natal não vai mais ter presépio feito em casinha de madeira com luz e cartões de Feliz Natal com escrita caligráfica impecável. Aos domingos, Joaquim não vai mais esperar no portão de casa para receber o "Dadito".

O queridão já deixou saudade.

O queridão festejou seus 80 anos no último dia 6 de dezembro, no hospital, agradecido por Deus ter estado ao lado dele e ele ter vencido a cirurgia para retirada de um tumor no cérebro. O pai conseguiu passar pelo mês de dezembro, seu mês preferido. Ele conseguiu ver, ouvir e falar com a esposa e as filhas um dia antes da partida.

Tem muito amor e carinho aqui, agora parecendo perdido, que não sabe pra onde vai. Por enquanto tá na saudade.

Dia 12 de janeiro de 2016 começou triste, já na madrugada, e vimos o dia nascer na Capela. E tinha brilho no céu. Digam o que quiserem: planeta, estrela ou satélite. Para mim, era meu pai, que levou junto o brilho dos olhos lá pra cima.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Sobre narigudas e prostitutas

Naquele dia travou-se um embate, por fim, pacífico e revelador. Era eu contra uma prostituta. Ao meu lado, um dos meus melhores amigos; ao lado dela, uma amiga. Eu só estava no lugar e na hora errados. Ou certos. Como saber?

Pois eu soube. Naquele dia de verão em que decidi ir num boteco, com meu melhor amigo, comer um pastel, ou croissant, ou panqueca. Já não lembro. Saí do trabalho, final de tarde, e resolvemos brindar à vida. Com um doce. Escolhemos uma lancheria que ficava em frente à praça do centro da cidade. Nos finais de semana, em geral, o local era frequentado por famílias e jovens casais. Nos dias de semana, por funcionários das empresas vizinhas. As empresas vizinhas eram gráficas, comércios, um posto da Brigada Militar e locais de prestação de serviço de prostituição, do mais humilde ao de maior prestígio da cidade. Assim era.

Quando adentramos o estabelecimento, não lembro se ali as moças já estavam. Lembro que fizemos o pedido e, como sempre, atualizamos os assuntos, desde o mais profundo e sentido ao mais banal e corriqueiro evento do dia. Nossas conversas eram, e sempre foram, regadas a muito riso. E assim foi. E bastou um olhar para a dupla que estava sentada ali adiante para que o evento se concretizasse.

Maldita hora em que parei ali. Maldita a hora em que sorri, e ri, e cruzei meu olhar com o dela. Ela não era a Julia Roberts em “Uma linda mulher”. Ela era a moça consumidora de álcool e drogas, magra, com os ossos superiores da bacia à mostra, do short jeans rasgado, do espírito e da pele sem cor, sem brilho, entregue à vida. Ela era da vida. E a vida era dela. E eu ria, da minha conversa com Anderson. E ela criou que eu ria dela.

Iniciou com um fuzilamento pelo olhar e uma ameaça contra mim. E despejou: “quem tu pensa que é? Tá rindo de mim? Se acha melhor que eu? Tá te achando com um homem bonito do teu lado? Como pode? Uma alemoa baixinha. Nariguda e fedorenta. Tá rindo de quê?!”

Hã? Batimento cardíaco acelerando, e eu pensando: de onde surgiu tudo isso? A moça foi se levantando e quis vir para cima de mim. Anderson interferiu e disse que chamaria a Brigada, ao mesmo tempo em que cobrava do proprietário do estabelecimento alguma providência, visto a surrealidade do quadro. A tensão deve ter levado em torno de um minuto. Minuto eterno. O proprietário do boteco tentou apaziguar os ânimos, e convidou as moças a se retirarem. A mais transtornada, convencida pela santa amiga, tardou para deixar o local, mas se foi. Nós saímos na direção contrária.

Sim, eu sou ‘alemoa’. Dessas de origem alemã. Eu não sou fedorenta, exceto quando suo, como qualquer um. Eu não suava naquele momento. Quer dizer, suava. Frio.  Mas eu sou nariguda. Dessas de origem alemã, mas que o pessoal acha que é italiana ou judia. Noutro dia, no aniversário do meu avô, quando falávamos sobre bullying na infância, ou sobre o melhor ângulo de cada um para aparecer nas fotos, um primo comentou, consciente e realista, que todos ali passavam pelos mesmos problemas em relação ao nariz. É de família. Herança minha, reconhecida – e para reconhecer não precisa muito! – pela prostituta, que apontou (n)o meu nariz.

Já se referiram a mim, pelo que soube, como aquela loirinha de óculos, ou a baixinha magrinha, ou “aquela guria que... é engraçado, porque ela é tri nariguda, mas até que é bonita”.

Eu fiz um curso de Libras recentemente, e descobri que os surdos te dão um nome, uma denominação, e que eles não costumam ser muito gentis, pois costumam te identificar com uma característica marcante. No primeiro dia do curso, eu havia feito escova no cabelo. Fui batizada como a “D” do cabelo liso...

Tá, mas... só um pouquinho: e o meu nariz? Ninguém viu o meu nariz? Por que não me apelidaram de “D” do nariz comprido? Por quê?

Então que tenho um caso de amor e ódio com meu nariz comprido, anguloso e assimétrico. Ele me identifica, e também nele me reconheço; meu filho o aperta e amassa como se fosse massinha de modelar, cheio de amor. E eu amo tudo isso. Mas é neste mesmo nariz que evito pensar quando fico à esquerda, ou à direita, ou de qualquer lado do pessoal para tirar uma foto; ou quando vejo esses narizes retos, pequenos ou arrebitados, cheios de delicadeza.

Sim, as insatisfações nossas de cada dia que, quando apontadas por outro, se tornam (mais) reais. As nossas fraquezas são nossas, e que ninguém as descubra, sob pena de sermos descobertos.

Por fim, soube, anos depois, que eu estava onde deveria estar quando dei com as fuças (!) naquela moça. Ela me descobriu, e me fez descobrir quem era eu. Não a que ria dela, ou a fedorenta: mas a alemoa nariguda que, apesar de tudo, só queria rir da vida e de seus percalços. O meu nariz não me define, mas me identifica; ele é apenas mais uma característica minha. E o trabalho da moça também não a define. No entanto, foi com aquela denominação do título que me referi a ela até aqui. E assim a gente vai vivendo, escrevendo e aprendendo.

Baita lição de vida.


terça-feira, 29 de abril de 2014

Sobre a vingança silenciosa

Armando, terno Armando, brasileiro, herdeiro, casado, apaixonado, do lar, capacho, que num belo dia resolveu mudar. Mas antes da mudança, vamos falar sobre Armando, cujo perfil parece absurdamente inexistente. Mas é real.

Armando vinha de uma família de bom coração. Foi criado nesse ambiente, e desta forma formou sua personalidade. Por sorte, além de bom coração, era dotado de um exemplar biotipo, o que atraía a atenção das meninas da cidade desde sempre. Morava no interior e, ao concluir o Ensino Médio, foi enviado para a capital para continuar os estudos. Meses antes de concluir a faculdade, recebeu a triste notícia de que seus pais, já idosos, haviam falecido durante uma festa que ocorreu na cidade. A dança, no baile, exigiu muito dos já cansados, porém bondosos corações, e acabou por levar o casal a óbito, ambos, ao mesmo tempo, no mesmo lugar. Coisa de destino.

Após a morte dos pais, Armando, filho único, tendo já concluído a faculdade, resolveu retornar ao interior para tentar manter a rotina que tinham seus pais. Tentou, durante um ano, mas as luzes e o movimento da capital pareciam lhe chamar de volta, e Armando, agora com uma herança sem precedentes, não importando se tinha ou não um emprego, resolveu voltar à capital.

Armando comparecia às danceterias mais frequentadas da cidade. E numa dessas incontáveis noites, conheceu Laura, que de santa nada tinha. Mas o pior, que não foi dito até agora, é que Armando, mesmo lindo, inteligente e de bom coração, era ingênuo nas questões sentimentais. Muito ingênuo.

Laura, loura, era uma fisioterapeuta com boa formação, mais física que curricular. Apesar de ser relativamente bem sucedida no trabalho, obtinha maior êxito nas investidas durante a noite. Estava solteira, por opção, mas resolveu alterar seu estado civil após conhecer Armando.

Namoraram, noivaram e casaram.

Armando, apaixonadíssimo, sem preocupar-se com trabalho, afinal, renda não lhe faltava, dedicava-se totalmente ao lar. Preparava jantares para Laura, levava a cadelinha Lucha, uma poodle branca, para passear, deixava tudo pronto, limpo e cheiroso para a amabilíssima esposa, que frequentemente fazia hora extra. Laura chegava tarde e, muito embora tinha casa, comida e roupa lavada, desprezava o dedicado marido, mas nunca os presentes de bom gosto que dele recebia.

Ele paciente, esperançoso, de bom coração, não queria ver o que todos viam, mas um dia se cansou das constantes saídas de Laura, principalmente à noite, quando ela então retornava à casa com o cabelo bagunçado e a maquiagem borrada, e com um perfume cujo olor passava longe daqueles presentes dados a ela por ele, escolhidos meticulosa e delicadamente com todo amor que um marido apaixonado dedica à esposa. 

Os eventos culminaram numa noite em que ele a esperava com um jantar especial, mais especial que nunca, e ela, alegando que não conseguiria chegar em casa a tempo, pois havia aparecido um caso especial na clínica onde trabalhava, ligou avisando que teria de ficar até mais tarde. Ele, preocupado e dedicado, dirigia-se à referida clínica quando, a caminho, por acaso, avistou o carro de Laura saindo de um local que cobrava estadia por curta duração. Ela na direção e, ao seu lado, um homem. 

Sabe-se que Armando era incapaz de fazer mal a uma mosca, e não conseguia ofender, física ou moralmente, quem quer que fosse. Um palavrão nunca havia sido pronunciado por ele. Mas seu coração estava cheio de rancor, ciúmes, uma coisa inominada, indescritível, que não permitiu que Armando se mantivesse naquele padrão de comportamento pacífico. Mas ele não sabia como agir, já que era a primeira vez que ele se deparava com uma situação como aquela. 

Armando pensou. Refletiu. Esquematizou. E refletiu novamente sobre a forma com a qual ele finalmente poderia se vingar de toda injustiça e ingratidão de Laura. Ele precisava extravasar. Ela recém havia saído para trabalhar, e era hora do passeio matinal de Lucha.

Um dia comum, como qualquer outro, e Armando saiu para passear com Lucha. Aproveitou para levar a cadelinha para tomar banho e fazer a revisão com a veterinária. Ainda na Pet Shop, comprou um perfume barato para Lucha. Deu mais uma voltinha pelo bairro e entrou numa loja de perfumes importados, comprando um lindo exemplar de perfume francês, numa linda embalagem, para a querida Laura.

Justificava-se mentalmente, desculpava-se com Lucha, dizendo que não era nada pessoal, mas entendia ser necessário o que estava por vir. Precisava se afirmar, agir como homem, talvez pela primeira vez na vida. Faria o que nunca havia feito. Era a vingança sonhada.

Foi então que, tomado de muita coragem, elaborou o preparo: colocou o perfume de Lucha na embalagem do perfume francês de Laura. Faltavam cinco minutos para Laura chegar. E ele a esperava com o jantar pronto. E um presente.

Laura chegou cansada naquele dia, não tão tarde como de costume. Cumprimentou-o normalmente ao chegar em casa. Lavou as mãos e dirigia-se à sala de jantar quando recebeu o presente de Armando. Seus olhos brilharam. Ela agradeceu, sorridente, pois sabia que era mais um daqueles presentes que ela adorava. Então desfez lentamente o tope em fita vermelha que enlaçava o pacote. Abriu o mesmo com cuidado para não rasgar o lindo papel dourado que envolvia a caixinha do presente. Leu o rótulo. Era francês. Ela sonhou com os olhos e suspirou. Retirou o vidro do perfume de dentro da caixa e, enquanto abria lentamente a tampa delicada do frasco para apropriar-se do perfume que passaria a ser sua mais nova marca registrada de personalidade, Armando nervoso, mentalmente pedia perdão aos céus e a Lucha, pois a hora era aquela. Foi o tempo de Laura aproximar a narina do frasco e, com visível decepção, afastá-lo. Só não recusou porque era 'francês'. Imediatamente retirou-se  da sala e foi ao banheiro para tentar desentranhar de si aquele cheiro que lhe havia enganado. Imediata e mentalmente Armando rogou perdão a Lucha, afirmando que qualquer depreciação de sua raça era necessária naquele momento, pois ele seria desrespeitoso como numa havia sido. Precisava extravasar. Armando conseguiu emitir, em sussurrado e baixo tom, direcionando as palavras à Laura para que, de certa forma não as ouvisse: "sua cadela". 

Vingou-se, finalmente. Depois dirigiu-se à mesa e esperou Laura para jantar. 














quarta-feira, 1 de maio de 2013

Sobre a mania de simetria

Das manias de João, a de simetria era a que mais demandava atenção. Os móveis da humilde casa haviam sido metodicamente escolhidos, em si, e no local que ocupavam na casa. João evitava espelhos, já que não suportava a assimetria do rosto. No entanto, em relação às coisas sobre as quais mantinha o controle, desenvolvia a simetria com arte.

Diziam os colegas de trabalho, que ninguém mais possuía maior controle sobre a situação da segurança da empresa que João, que trabalhava como vigilante noturno na área externa há mais de cinco anos. Afinal, ele sempre conseguia enxergar o que os outros não viam, e se colocava sempre em local estratégico, a fim de visualizar as situações com clareza, mesmo que isso significasse não estar no local determinado pelos superiores, pois nada era superior à mania de simetria.

Os colegas eram sabedores da habilidade/deficiência do colega, mas ela só havia começado a atrapalhar há alguns meses. João, que não acreditava em medicação, tornava-se cada dia mais maniático, de forma que a doença poderia prejudicá-lo em suas relações profissionais, já que relações pessoais eram impossíveis e, portanto, inexistentes.

João era feliz em seu trabalho, até então. Passava boa parte do dia dormindo, iniciava a jornada à meia-noite e seguia até às seis. Não tinha veículo próprio, motivo pelo qual utilizava os meios de transporte coletivos. Preferia os lotações, que não tinham cobrador. Desse modo, como era praticamente o único passageiro das viagens daquele horário, conseguia viajar na última poltrona do lado da porta, perfectibilizando, assim, a simetria no veículo: motorista na frente, à esquerda, e passageiro, atrás, à direita. O ideal era que os veículos utilizados por João levassem um número par de pessoas, mas tampouco esse conceito inicial era capaz de manter a sanidade de João. Se por acaso, além do motorista, houvessem dois passageiros sentados no lado do motorista, João, que já visualizava a cena ao entrar no veículo, dava meia volta e tentava o próximo lotação, já que, em hipótese alguma, conseguiria equilibrar os passageiros no lotação estando eles distribuídos daquela maneira. Por este motivo é que costumava sair cedo de casa: não gostava de chegar atrasado, e gostava de estar preparado para eventuais contratempos.

Porém, tudo mudou no dia em que João foi convocado para substituir um colega cuja jornada iniciava às oito. Relutou, remoeu, não quis perder o emprego, resolveu arriscar. Um tremendo desastre. Mesmo saindo muito, mas muito cedo de casa, teve de enfrentar três ônibus diferentes até chegar ao trabalho. No primeiro ônibus, teve problemas com quatro passageiros que se negaram a trocar de lugar para atender às suas necessidades. No segundo, desistiu de pronto ao visualizar o cobrador, localizado no primeiro terço do ônibus, junto do motorista e de mais 4 idosos. Mal sobreviveu ao terceiro transporte. Era um lotação, sem cobrador, que já levava dois passageiros, já muito bem colocados em seus lugares, conforme a previsão de simetria de João, já prevendo onde teria de sentar. Ocorre que, dali para diante, passageiros entraram e saíram, e João teve de ficar pulando de uma poltrona para outra, conseguindo a simpatia dos passageiros, poucos, que atenderam solicitamente aos pedidos de João para que também eles trocassem de lugar. Vinha com papo de segurança no transporte, baseado no equilíbrio dos corpos, uma conversa maluca, que convencia alguns, enquanto a outros, somente servia para início e fim de discussão, de quem não está afim de incomodação antes de chegar ao trabalho. João trocou de lugar umas sete vezes, aproximadamente. Chegou no trabalho mentalmente cansado, julgando não ter condições de trabalhar decentemente. João era o único vigilante daquele horário naquele dia. No entanto, como obrigação, prestou brilhantemente seus serviços.

Porém, ao final da jornada, deu-se conta de um detalhe que provocou-lhe um surto: não esteve sozinho naquela manhã, e portanto, não conseguiu controlar a simetria  naquelas últimas horas. Fora acompanhado do sol, e logo, de sua sombra, que não lhe abandonou, e também não lhe obedeceu as regras de simetria. Deprimiu-se, o João. Havia perdido o controle da situação. Pediu demissão. 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Sobre a ceia

Não era exatamente um encontro. Ambos já haviam estado ali, por diversas vezes, saciando a fome. A avenida, iluminada e movimentada, criava uma luminosidade perfeita para a ceia. Ali, como em toda e qualquer cidade metropolitana que se preze, era cada um por si e todos contra todos, de modo que, como todo início de relação, eles não estavam nem um pouco preocupados com as pessoas à volta.

Possuíam rotinas semelhantes, mas nada sabiam um do outro. Era certo, no entanto, que o encontro havia sido naturalmente planejado. Cada um carregava uma bolsa, muito particular, mais parecida com uma sacola, e nela levavam o mundo. Iriam a qualquer lugar com aquela bolsa, afinal, seriam as típicas pessoas desprendidas das coisas do mundo.

Ao mesmo tempo, estavam tão fascinados e obcecados pelas coisas alheias e que já não pertenciam a mais ninguém, que passavam boa parte do tempo à procura delas, ou de algo mais.

Certo dia, um observador, que passou despercebido, analisou o comportamento de ambos. Ela, de cabelos nem tão compridos, mas presos e não tingidos, com boa postura e conduta objetiva, rapidamente optava por um dos itens do cardápio. O outro, um senhor de meia idade, levemente descuidado da apresentação, passava tempo analisando os itens, tirando pequenas provas das novidades que lhe eram oferecidas. Por diversas vezes, nada escolheu, e seguiu seu rumo, incerto.

Mas ali, naquele momento, eram os dois, compartilhando o que ninguém mais possuía, o que não era de mais ninguém. Compartilharam a solidão, o rumo incerto, o olhar sem olhar dos outros e o que estes haviam deixado: os restos da fartura do fim de semana, numa sacola plástica, mais os restos plásticos de um recipiente de bebida que, de repente, alguma dignidade poderá trazer.