sexta-feira, 8 de julho de 2011

Sobre a origem do umbigo

Em uma dessas raras ocasiões em que o umbigo se expande, continua sendo incerta a origem da linha contínua que muito se assemelha àquele espiral giratório utilizado para supostas hipnoses ou como ilustração de um hipotético túnel do tempo.

Do umbigo que se refugia ao umbigo sobressalente, não há indivíduo que consiga identificar o seu início. Sabe-se, pela literatura e pela prática médica, que o umbigo é o resquício do cordão umbilical, cortado e cicatrizado, ligado ao útero materno através da placenta, mediante o qual o feto é alimentado durante as semanas de gestação.

É preciso coragem para cortar o cordão, rompendo com o laço primitivo entre mãe e filho.

Ao final, bilhões de habitantes do Planeta Terra, independentemente do seu caráter, apresentam um umbigo. Todos eles, portanto, já tiveram mãe.

No entanto, não há quem afirme com certeza sobre a origem da vida, tão obscura quanto à origem da linha do espiral giratório que se inicia em algum ponto do umbigo, ou sabe-se lá em que parte do corpo humano, e que se dissipa nas margens do próprio umbigo.

Sendo incertos o início e o fim de referido espiral, só nos resta cuidar das linhas visíveis e perder-se cuidadosamente nas incertezas das linhas invisíveis e imaginárias. O desconhecimento sempre traz uma certa magia ao mais racional indivíduo realista.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sobre o medo

É cama, é roupa, é banho e sacola. É meia, é cobertor, é afeto direcionado. É calor, é carinho, é preparação pra chegada. E se não chegar, e se for embora, e se acabarem cedo com a demora... E se não corresponder, e se se perder, e se eu me perder em medos, não será mais nada. O maior medo é o medo de perder o 'é', que é o medo do deixar de ser.

Sobre vaidades

Todo mundo tem uma foto preferida, um ângulo que lhe favorece, uma amizade de admiração e respeito recíprocos e um ou outro contato de ódio desconhecido, velado, ou mesmo explícito. O cabelo bonito, alisado, escovado, de uma foto que registrou momentos de uma data marcante em nada corrobora com a realidade dos dias comuns, entre pessoas que estão habituadas ao nosso modo de ser, pouco importando o tempo perdido em frente ao espelho ou sob a água do banho. O brilho no olhar, o olhar que assusta, o sorriso que acolhe, as palavras que enobrecem, os gritos que sufocam e os braços que aquecem, entretanto, são sempre os mesmos. Personalidades e faces maquiadas nos enganam, pois não passam de uma representação daquilo que se deseja, muitas vezes daquilo que não se é. Vestir a fantasia do personagem é permitido. Só não se admite esquecer-se de quem se é.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Sobre o recolhimento

A apresentadora da previsão do tempo no meio televisivo informa: dia ensolarado, com mínima de quatorze graus, e máxima de vinte graus Celsius. É o início do outono, do recolhimento, da guarda e mantença do estoque adquirido durante os últimos meses, que servirá para atender as necessidades vindouras.

É tempo de acordar coberto pela manta que lhe envolveu a noite toda, levantar com os braços nus, sentir a temperatura da manhã, arrepiar-se, e dar-se conta de que os ruídos barulhentos do verão passado transformaram-se em suaves sussurros, que teimam em não despertar o justo de seu sono leve e tranquilo.

É tempo de compartilhar o silêncio na mais pura cumplicidade, sem, no entanto, compartilhar exatamente de todos os medos, desejos, fantasias que tomam a mente do ser ao lado. Respeita-se a intimidade, pois o respeito ao outro é a maior prova do amor existente entre os dois polos. Não se questiona o silêncio alheio, pois ele deve ser tão forte quanto o que habita nas bandas de cá. Não se tem medo do silêncio alheio, pois ele é a prova viva da riqueza do ser que, mesmo em silêncio, tem o pensamento habitado por um turbilhão de ideias. O silêncio nunca é vazio. Ao contrário, sua densidade pode comprometer a tranquilidade do ser mais equilibrado que presencia o momento.

É tempo de recolher-se em pensamento, e esvaziá-lo em forma de afeto, soprado ao ouvido como brisa, que refresca sem molhar, pois sabe-se o quão grandiosa é a sutileza do pouco ou nada dizer, e tudo se entender.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Sobre Joaquim

Um pequenino de nome Joaquim, pernas fortes e olhar doce percorreu os ares do planeta, buscando o melhor momento para um pouso nada forçado. Refletiu sobre os benefícios de continuar a jornada ou apenas encerrar uma fase. Tão logo outra se iniciaria, e o sofrimento da mudança mal ocuparia o largo espaço a ele dedicado, há meses preparado.

Percorreu, com olhar curioso, as formas de vida, os modos aprendidos e as cores de cada canto, optando por ficar com aquele que melhor lhe convinha, considerando as condições de temperatura e pressão, dentre outros fatores provavelmente muito mais importantes.

Não foi possível checar o que lhe vinha aos ouvidos por aqueles fones, ligados a fios, conectados a um aparelho que, além de gerar alegria, também reproduzia música. Sabe-se única e exclusivamente que o pequeno andava ao ritmo do que ouvia. E assim ele flutuava, e era capaz de chegar a qualquer lugar. E chegou.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Sobre a espera

Ousei perder-me em datas e contrariar o entendimento generalizado da sociedade. Expectativa que leva a susto, que encaminha pra completude, que se não fosse concretizada, frustração geraria. Ainda não era a hora, mas parece que era assim que tinha de ser. Então, a hora era a melhor, tanto quanto a escolha, já há tempos efetivada. O resultado, por fim, é a espera; e o amor, a CNTP da origem de um núcleo que se amplia agora e que tem como objetivo o estar junto de quem se quer bem. Muito bem.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Telemarketing da madrugada - parte I

01h30min da noite de 20 de dezembro de algum ano, passado ou futuro. Faz calor, e a promoção é: ''pegue um, leve dez''... mosquitos. Toca o telefone do jovem senhor Misael, eterno insone da madrugada. O DDD é 011, e Misael mora em 051.
- Alô?
- Alô, boa noite. Por favor, o senhor Misael Garcia?
- Ã?
- Por favor, eu gostaria de falar com o senhor Misael Garcia.
- Quem é que tá falando?
- Seu Misael Garcia?
- Hm..
- Seu Misael, aqui é Eleandra, da American Dream Cartões de Crédito, tudo bem?
- T..
- Seu Misael, nós estamos entrando em contato com o senhor para estar lhe apresentando as excelentes condições de nossos serviços, e os benefícios que o senhor estará encontrando ao poder estar desfrutando do nosso cartão da American Dream, o senhor já conhece?
- Ããã... na verdade não. Mas...
- O American Dream tem a menor taxa de juros do mercado, e ainda lhe confere 100 pontos a cada compra ou parcela no valor de R$100,00, sendo que ao somar 1000 pontos, o senhor pode trocar o bônus por uma viagem ao espaço.
- ...
- ...
- HEIN?!?


(continua)

Sobre o telemarketing afetivo

Nem me lembro da hora que o relógio marcava, até porque o relógio da sala - que não é um cuco mas tem a aura de um - deve estar alguns minutos atrasados. A questão é que já passava de meia noite, embora os fogos de Copacabana continuassem a todo vapor.

Então que tocou o telefone, com um código de discagem direta à distância conhecido. O número, porém, era desconhecido. Mas minhas suspeitas se confirmaram: era bem mais que um telemarketing de madrugada; era a saudade cantando ''adeus ano velho, feliz ano novo'' e que tudo se realizasse no ano que ia nascer. Outras coisas haveriam de nascer no novo ano, e o que me desejaram de lá, do outro lado da linha, foi vida, mas muita vida.

Foi o melhor 011 que já recebi. Aliás, sendo 011 ou 051, a origem da palavra que vem é sempre bem vinda. É sempre presente; nunca esquecida.

O melhor é que o 011 não tinha sotaque paulista, tampouco quis vender revistas ou cartão de crédito. Contato incondicional, só pra dizer que ama. Viva o telemarketing afetivo.

Feliz 2011!