quarta-feira, 6 de abril de 2011

Sobre o recolhimento

A apresentadora da previsão do tempo no meio televisivo informa: dia ensolarado, com mínima de quatorze graus, e máxima de vinte graus Celsius. É o início do outono, do recolhimento, da guarda e mantença do estoque adquirido durante os últimos meses, que servirá para atender as necessidades vindouras.

É tempo de acordar coberto pela manta que lhe envolveu a noite toda, levantar com os braços nus, sentir a temperatura da manhã, arrepiar-se, e dar-se conta de que os ruídos barulhentos do verão passado transformaram-se em suaves sussurros, que teimam em não despertar o justo de seu sono leve e tranquilo.

É tempo de compartilhar o silêncio na mais pura cumplicidade, sem, no entanto, compartilhar exatamente de todos os medos, desejos, fantasias que tomam a mente do ser ao lado. Respeita-se a intimidade, pois o respeito ao outro é a maior prova do amor existente entre os dois polos. Não se questiona o silêncio alheio, pois ele deve ser tão forte quanto o que habita nas bandas de cá. Não se tem medo do silêncio alheio, pois ele é a prova viva da riqueza do ser que, mesmo em silêncio, tem o pensamento habitado por um turbilhão de ideias. O silêncio nunca é vazio. Ao contrário, sua densidade pode comprometer a tranquilidade do ser mais equilibrado que presencia o momento.

É tempo de recolher-se em pensamento, e esvaziá-lo em forma de afeto, soprado ao ouvido como brisa, que refresca sem molhar, pois sabe-se o quão grandiosa é a sutileza do pouco ou nada dizer, e tudo se entender.