sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Sobre lucidez e demência

A lucidez na terceira idade é, ao mesmo tempo, possibilidade de garantia de sobrevivência digna em sociedade e maneira peculiar de se desvendar os absurdos da condição humana, que constituem verdades felizmente desconhecidas àqueles que demonstram sinais de demência. Lucidez e demência não são, entretanto, estados elegíveis, senão imposição da nossa própria natureza.

Sobre o tempo II - diálogos insubsistentes

- Então, quanto tempo tenho?
- Pelos nossos cálculos, o senhor tem, aproximadamente, 9 mes..
- O quê?!? Falas de meses, tipo.. dias, e horas? Oh, por favor, meu tempo eu meço em xícaras de café. E então, quantas me restam? Vamos lá, quantas? E ainda: são cheias, meio cheias, meio vazias... ?
- Eu não saberia precisar deste modo, senhor.
- Ora, mas que absurdo! Quem foi que inventou esse teu tempo?! E por que o segues?
- Foi o senhor que inventou.
- O senhor lá, o Senhor, ou o senhor ‘eu’?
O senhor.
- .... hm... e quando foi isso?
- Eu não saberia precisar, senhor.
- Não estamos sabendo precisar coisa alguma por aqui....
- ... é o tempo, senhor.
- Tempo?!?! Que tempo? Ah, por favor, poupe-me.
- ...
- Mas então, me diz, quantas xícaras?
QUERES XÍCARAS? NADA DE XÍCARAS, SENHOR! TERÁS COPOS. OU MELHOR: CANECOS! PENSANDO BEM, SERÃO BARRIS!!
- Barris de café? Ah, mas assim tu me..
- Não, senhor. Barris de tempo..
- Ah... ok... E... o que farei com eles?
- Tomarás café, presumo.
- Em barris?
- Não, senhor. No tempo.
- Fiquei confuso..
- Olha, isso já está ficando cansativo. Façamos assim: o senhor continua tomando o seu café, e esquece o tempo.
- Não. Eu não poderia. Impossível. O tempo é meu. É o MEU tempo!
- Então não me pergunte quanto tempo tem...

Sobre o vazio

Olha o vazio,
como invade!
E como pode
ser vazio
e ocupar tanto espaço?

Sobre o tempo I

Sentia o passar, o pesar
Como quem fecha os cadernos de um jornal.
Olha em direção ao nada,
E suspira a ausência de um evento por segundo
Que não fale de dor ou de um fato,
Assim, banal.

Ouvia o tempo pela metade
Acelerado, ou em parte para esquecer.
Tempo de palavras vãs,
Esparsas, sozinhas, amontoadas,
Meias palavras.

Contentava-se com os gestos
Breves, sinceros, envoltos em cores,
Brilhos, contrastes, num tempo que pára.
Tempo que espera. Tempo que é justo.
Tempo que não se faz tempo quando estanca.
Transforma-se em cena,
Lembrança fotografada num olhar
Que já foi senhor do tempo,
Que já esquece o que viu,
E o faz para viver mais.

Vive de paz, de tempo,
De memória e palavras.
Finge que esquece.
Finge que não se submete ao tempo
Para não dar ao tempo o poder de meias palavras,
Meias vidas...
Tempo, assim, pela metade.

Sobre mim

Instada a manifestar-se acerca de sua personalidade, afirma que nasceu numa segunda-feira, segundo o calendário. Mau humor provável e agitação suficientemente controlada, segundo seu pai. Só o tempo haveria de comprovar, ou não, as previsões do profeta.

A respeito de sua infância, diz que não gostava de bico, nem de mamadeira, porém agarrava-se ao peito da mãe. Esvaía-se dos braços de quem desejava lhe prender no colo. Não se recorda precisamente destas passagens, porém acredita em sua veracidade, afinal, mãe não mente.

Foi uma criança – interrompe a afirmativa questionando-se: ‘fui’?! – amada, comportada, ciumenta e engraçada. Não poupava caretas. Algumas foram abolidas, enquanto outras se mantiveram. Freud, ou mesmo Darwin, devem ter alguma explicação.

Refere sinais de adolescência tardia, com manifestações até o presente momento. Afirma, entretanto, que não suporta adolescentes em bando, pois reconhece aí uma amostra iminente de comportamento psicopático.

Refere, ainda, surtos momentâneos de ansiedade sem motivo suficientemente embasado, do que decorre a possibilidade de um gesto autofágico, poética e literalmente falando. Abre aspas: “eu consigo detonar unhas e cutículas de modo excepcional”.

Informa que deseja o bem para si e para os demais, contanto que não se aproveitem de sua nobreza, tal qual Chapolin Colorado.

Aprecia a paz de espírito, mas gosta de procurar cabelo em ovo, e ainda pensar no penteado. Gosta de ter do que gostar e em quê pensar. O ócio lhe faz mal, e quanto mais atividades a desenvolver, melhor. Daí a possibilidade de viver num mundo fantástico, imaginário, porém com os pés no chão.

Afirma, com certo pesar, que ainda acredita no ser humano. Já magoou e já foi magoada, mas tem certeza de que a vida que não oferece riscos está longe de ser a ideal.

Sonha com independência e estabilidade financeira e emocional. Busca novidades. O comum não lhe atrai. O sem graça não desperta qualquer sentimento. O banal deixa a vida cinza, e o que ela busca é ter todas as cores, sabores, sons, perfumes e tudo aquilo que desperta os sentidos e as sensações.

Aprecia unhas e sobrancelhas femininas bem feitas, mas prende a concentração nos atributos masculinos.

Acredita na verdade e na justiça, mesmo sabendo que esses são conceitos relativos e, portanto, quase que inalcançáveis. Afirma que tal busca, entre outras, reflete um superego atuante, porém o ID continua persistente, sonhando em alcançar o seu lugar ao sol, para o bom equilíbrio físico e mental.

Para finalizar, fazendo referência à citação de Malito em relação a um terceiro, diz que não confia em ninguém que fale sobre si na terceira pessoa do singular.

Mas se ela confia em si, este seria um caso de contradição atuante? Definitivamente sim. Sem sombra de dúvidas.