Há quem morra de saudade
Enquanto outros tantos dela vivem.
domingo, 28 de novembro de 2010
sábado, 30 de outubro de 2010
Sobre a otimização de recursos
Noutro dia mesmo estávamos a nos questionar sobre o rumo que as coisas haviam tomado. Perguntávamos como era possível que a mais linda das relações tivesse um final como aquele, banal, para dizer o mínimo.
Eu nunca havia duvidado do amor entre os dois, mas me preocupava a insegurança de um, que, justamente pela carga eficacial de sua insegurança, era capaz de criar situações arriscadas, tanto para si quanto para a relação na qual se inseria. Mas eu, como há pouco havia descoberto que mais se ajuda quando menos se interfere na relação alheia, resolvi me calar. Era melhor que cada um soubesse qual a melhor forma de amar. E assim foi.
Noutro dia estava eu numa dessas estações de trem, típicas por seus odores de pães de queijo e cigarros acesos, cuja fumaça insiste em continuar no ar, criando aquelas formas quase indefinidas, que seriam lindas se não fossem prejudiciais. Em meio a escadas rolantes de corrimão passado, lembrei-me do dia em que passei junto do casal, de como fui acolhida no espaço mais íntimo daqueles dois. Um deles me recebeu na estação, enquanto o outro terminava o jantar para me receber. Não me lembro da música que tocava quando cheguei à residência, mas lembro que o espumante brindou ao que seria a minha primeira saída noturna na Capital do Estado. Levaram-me para uma danceteria de diversidade cultural conhecida. Foi quando descobri que caminhar, de madrugada, pela Capital, não precisava ser perigoso, mas obrigatoriamente divertido.
Enfim, todos esses detalhes talvez tenham me ajudado nas associações que fiz, entre o casal, o local, as circunstâncias e aquilo que chamam de amor.
Parece que não estão mais juntos. Um deles jura que o final foi banal, e que o relacionamento longe estava de ser caracterizado desta forma, mas foi assim que terminou. E foi na estação de trem que voltei a sentir o vazio característico deste tipo de situação. Eu já passei por um vazio que me ocupou integralmente, e volta e meia me forço a recordar como era, sabe-se lá por quê. Mas a dor me tomou quando pensei no casal, e no vazio que provavelmente um deles ainda sentia. Creio que estações de trem proporcionam essa sensação, de quem vai e quem fica. Daí a minha lembrança de quem era, foi, voltou, ficou, e todos esses verbos dentre o ser e o estar que nos minimizam a simples mortais, despidos de vaidade, que nos fazem desejar a mais simples das vidas para ter o melhor dos afetos. É o que chamo, carinhosamente, de otimização de recursos.
Eu nunca havia duvidado do amor entre os dois, mas me preocupava a insegurança de um, que, justamente pela carga eficacial de sua insegurança, era capaz de criar situações arriscadas, tanto para si quanto para a relação na qual se inseria. Mas eu, como há pouco havia descoberto que mais se ajuda quando menos se interfere na relação alheia, resolvi me calar. Era melhor que cada um soubesse qual a melhor forma de amar. E assim foi.
Noutro dia estava eu numa dessas estações de trem, típicas por seus odores de pães de queijo e cigarros acesos, cuja fumaça insiste em continuar no ar, criando aquelas formas quase indefinidas, que seriam lindas se não fossem prejudiciais. Em meio a escadas rolantes de corrimão passado, lembrei-me do dia em que passei junto do casal, de como fui acolhida no espaço mais íntimo daqueles dois. Um deles me recebeu na estação, enquanto o outro terminava o jantar para me receber. Não me lembro da música que tocava quando cheguei à residência, mas lembro que o espumante brindou ao que seria a minha primeira saída noturna na Capital do Estado. Levaram-me para uma danceteria de diversidade cultural conhecida. Foi quando descobri que caminhar, de madrugada, pela Capital, não precisava ser perigoso, mas obrigatoriamente divertido.
Enfim, todos esses detalhes talvez tenham me ajudado nas associações que fiz, entre o casal, o local, as circunstâncias e aquilo que chamam de amor.
Parece que não estão mais juntos. Um deles jura que o final foi banal, e que o relacionamento longe estava de ser caracterizado desta forma, mas foi assim que terminou. E foi na estação de trem que voltei a sentir o vazio característico deste tipo de situação. Eu já passei por um vazio que me ocupou integralmente, e volta e meia me forço a recordar como era, sabe-se lá por quê. Mas a dor me tomou quando pensei no casal, e no vazio que provavelmente um deles ainda sentia. Creio que estações de trem proporcionam essa sensação, de quem vai e quem fica. Daí a minha lembrança de quem era, foi, voltou, ficou, e todos esses verbos dentre o ser e o estar que nos minimizam a simples mortais, despidos de vaidade, que nos fazem desejar a mais simples das vidas para ter o melhor dos afetos. É o que chamo, carinhosamente, de otimização de recursos.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Sobre a busca
Reza a lenda que, quando o estrangeiro chegou à cidade, o caos já havia se estabelecido. Haviam dito-lhe, porém, que não fora assim nos tempos de outrora, quando reinava a paz, a tranquilidade, a organização, e de fato, todos estavam muito bem acomodados. Não havia um "ai" sem motivos, tampouco motivos sem leis, ainda que pessoais. Era uma sociedade estranha, e nunca ninguém havia duvidado disso, já que a razão poucas vezes dava as caras por lá e, sendo assim, seu perfil jamais haveria de ser questionado. Mas eis que uma inquietação pairou sob a cidade por aqueles dias, ninguém sabe como, nem por quê. O estrangeiro, sentindo a movimentação aparentemente anormal, passou a observar os passos e as pessoas, o tempo e a temperatura, os recônditos e os livros abertos. Verificou uma insaciedade, uma busca atordoada, uma corrida contra o tempo, e mais outras milhas de observações que anotou em um caderno antigo. E as pessoas, já insones e justificadamente insanas, iam de um lado para o outro, sem saber ao certo para onde ir. Até o movimento das folhas de uma árvore mirradinha, ali, no centro daquela muvuca, era mais lógico. Caixas novas e antigas, todas elas foram abertas, revistadas ao avesso, e nada. Também foram explorados os cantos de todas as casas, jardins, do que quer que fosse, e o ar esperançoso que se mantinha a cada procura transmutava-se em mais uma desolação. Pessoas foram interpeladas em busca de respostas, mas nada foi resolvido. Porém, antes que as pessoas desistissem, ou então decidissem por esquecer da procura, o estrangeiro perguntou, finalmente, a um morador que passava por ali, apressado, o porquê de toda aquela movimentação, e o que buscavam, afinal. Em duas palavras inseridas numa frase exclamativa e ao mesmo tempo reflexiva, o morador resumiu a ópera, respondendo-lhe: "um sentido!...".
sexta-feira, 23 de julho de 2010
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Sobre cabelos brancos
Um espelho pode ser tão atrante quanto repugnante; ele reflete movimentos quando passa despercebido, e estátuas de caras e bocas quando recebe atenção. Há, porém, que se atentar ao fato de que o espelho é um pobre coitado, que num quase inédito feliz final de uma brincadeira de telefone sem fio, só passa adiante a informação correta, tal qual ela lhe chega aos ouvidos, ou melhor, aos olhos.
Hoje mesmo passei por ele, e resolvi parar, assim, em frente, bem de perto. Fiz umas poucas caretas, analisei olhos, boca, pele e cabelos. Nestes, encontrei diversos fios novos, curtos, espetados, trazendo a boa nova da nova vida. Mas também encontrei um fio novo, porém branco. Branco! Eu tenho um pouco de sorte neste quesito, porque meus cabelos ficam entre o castanho claro e o loiro escuro, então os fios se disfarçam, e disfarçam cores e tons, e alguns brancos às vezes são apenas fios claros, mas noutras vezes, são realmente brancos.
Imediatamente eu tratei de culpar alguém pela mutação ocorrida em meus cabelos. Culpar-te-ei por meus fios de cabelo branco, pelas rugas ao redor dos olhos, pelo coração calejado e pela alma insensível!!! Mas a projeção não durou por muito tempo. Eu logo retomei a consciência, e num surto de sanidade, dei-me conta de que o tempo é implacável, para todos nós. Vinte e sete anos nas costas, uma vida mais tranquila que a de muitos que encontro por aí, algumas decepções que frustraram apenas as fantasias infantis, e sabe-se lá mais quantos anos pela frente.
Deveria eu orgulhar-me de meus cabelos brancos? Não. Seria otimismo demais. Pois a primeira reação que tenho é querer arrancar os fios, tal qual se tenta apagar da vista aquilo que do coração não se consegue arrancar. O fato é que eu ainda não sei como lidar com a chegada dos anos. Vejam, eu nem sei se os anos, de fato, passaram! Tem um adulto querendo me pegar pela mão, e eu continuo me perguntando quando é que termina a infância.
E para quem sempre se orgulhou de possuir como característica da personalidade a capacidade de se adaptar a novas situações, eu tenho me saído pior que a encomenda. Felizmente, outra forte característica é a instabilidade. E creio que devo me aproveitar de alguns momentos destes para fazer mudanças, e mais que isso: gostar destas.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Sobre miúdos nostálgicos
Morei num pequeno apartamento, numa grande, porém estreita rua. Minha capital se restringia ao Centro, e minha Universidade, a Senhor dos Passos. Andei a passos curtos e rápidos, entre lombas ascendentes e descendentes, desviando de transeuntes mais perdidos que eu.
Almocei torrada com suco de laranja, prato feito com Coca-Cola, e xis salada com Ice Tea nos melhores botecos da minha Capital. Provei o R.U. no meu penúltimo semestre de faculdade, com os bixos do curso de Música, e fiquei maravilhada com a existência humana.
Para a janta, o pedido à atendente da padaria era sempre o mesmo: dois cacetinhos e uma fatia de presunto. As fatias são grandes, e eu prefiro dividi-las ao meio. Queijo? Não me faz muito bem. Ainda, vez ou outra eu passava no supermercado e incluía no cardápio um tomate, no máximo dois.
Num belo dia, um rapaz me acompanhou até em casa, com o braço sobre meus ombros, e beijos estalados na bochecha. Antes, passei na padaria. O mesmo pedido. No caminho para casa, um pequeno beijo roubado em pleno canteiro da avenida que separava a minha quadra da quadra da padaria. Um frio na barriga. Depois, um beijo no pescoço, outro quase na nuca. Não era erotismo, mas prazer, no sentido mais puro da palavra. Despedimo-nos. Acenamos. Subi para meu apartamento. Falamo-nos ao telefone. Despedimo-nos novamente, com um beijo. Liguei para minha melhor amiga. Contei a novidade, extasiada. Jantei. Fui dormir. Acordei assustada, dando-me um tapa na testa. Levantei. Tomei banho. Fui lavar roupas. O telefone tocou. Era o rapaz me convidando para almoçar. Eu precisava esperar a máquina parar de trabalhar. Parou. Desci. Entrei no carro e lhe dei um beijo. Não senti fome. Não almoçamos. Andamos de mãos dadas. Matei a primeira aula. Cheguei atrasada na segunda.
Não desgrudei mais do moço. E eu nunca mais coube em mim, nem no apartamento. Fiquei grande demais. Mas não abandonei os miúdos: tornaram-se miúdos nostálgicos.
quarta-feira, 17 de março de 2010
Sobre heróis
Eu não me lembro de ter tido heróis em minha tenra infância. Certo, sem contar pai e mãe, porque heróis são geralmente aqueles entes sobrenaturais, mas que, de qualquer sorte, agem em perfeita conformidade com nossas expectativas e nunca nos decepcionam. Os americanos costumam ser muito bons em criar em heróis, em todos aqueles desenhos animados, e histórias fantásticas. Talvez porque sonhem com a concretização de um hipotético e inalcançável superego, como símbolo da mais perfeita ideia e de tudo o que nos remete a um modelo utópico de sociedade, de ser humano, de mundo, de todo. E de repente todos nós sejamos assim também, então deixemos os americanos de lado.
Pensando bem, o Papai Noel, sim, tinha uma aura um tanto diferenciada de tudo o que eu havia visto. O de verdade, aquele que nos trazia os presentes na época de Natal, esse eu nunca cheguei a ver. Os que eu via, e eu fazia questão de dizer que eram inventados, de mentira, eram aqueles com máscaras assustadoras, sem a barba branquinha de aspecto nórdico, tampouco o olhar doce e acalentador que deveria ter o MEU Papai Noel, ou então aquela barriguinha levemente, digo, consideravelmente saliente, que me fazia crer que, como bom velhinho residente nas gélidas montanhas, deveria estar sempre bem alimentado, fosse para estar presente, junto aos pequenos, ou por eles ser alimentado cada vez que passasse pela casa dos menores, ou dos grandes mesmo, porque até então, pra mim, o Papai Noel era de verdade. E mais: era eterno.
O máximo da realidade utópica que chegou ao meu conhecimento foi um Papai Noel que certa vez conheci numa antiga loja da cidade, sempre procurada por seus artefatos em couro, produtos esportivos, e mais um tanto de tudo um pouco, daquelas lojas que insistiam em sobreviver sem especialidade, vendendo de tudo, o que era, realmente, um universo imenso a ser desvendado. Cada passeio pela loja, ainda que esta não fosse a maior da cidade, era um evento. E foi num desses eventos que conheci um Papai Noel que me pareceu de verdade. Ele era gordinho. E lindo. E tinha a fala mansa e rosto e barba de verdade. Ele me deu uma bala. E eu, com meus oito anos de idade, aproximadamente, ainda muito desconfiada da real condição do bom velhinho, resolvi perguntar onde ele morava, na vã intenção de, quem sabe, conhecer a famosa cápsula que protegia tamanho segredo, sempre escondido de toda e qualquer criança. Ele me respondeu que morava nas montanhas.
Desde que eu me conheço por gente, eu nunca fui muito rápida para dar respostas, prontas ou pensadas no instante do constrangimento, da alegria, ou qualquer que fosse o sentimento. E eu também não fui naquele instante. Minha conversa com o Papai Noel se estancou por ali, sabe-se lá por que motivo. Eu havia saído do colo do Papai Noel. Diga-se, de passagem, que naquela época nem se cogitava a hipótese de pedofilia; primeiro, porque sempre fui ingênua; segundo, porque essas coisas nem estavam na moda, e a real é que o velhinho era muito do bem, então não havia por que se preocupar. Mas eu já estava a caminho de casa, e fiquei refletindo sobre a resposta vaga que eu havia obtido. E a pergunta que não queria calar era: mas em que montanhas, afinal, ele mora?
O tempo passou. Dentre várias dessas reflexões, corroboradas por pseudodepoimentos de coleguinhas céticos e sem graça de quarta série, que acabavam com a minha ilusão acerca da existência de Papai Noel, mais as descobertas de adesivos e papéis de presentes usados pelo velhinho, encontrados nas gavetas do quarto de meus pais, era chegado o dia em que todas as verdades seriam reveladas.
Estávamos eu, minha irmã, meus pais e minha irmã mais velha. E então o pai resolveu contar que... como posso dizer... Papai Noel não existia. Eu não lembro como foi que chegamos neste assunto, e como ele foi abordado ou fundamentado, mas sei que, na hora, eu pensei: como podem dizer que ele não existe se também eles, meus pais, nunca haviam conhecido o Papai Noel de verdade? Foi um choque. Sem exageros, mas, em meus pensamentos, eu quase poderia fugir de casa, pelo fato de terem nos mentido, durante todo aquele tempo, sobre a existência do Papai Noel, por nos terem feito de bobas, ou, quem sabe, por terem acabado com a nossa ilusão sobre o nosso herói. E a dor que era minha eu já tinha como nossa, como minha e da minha irmã do meio. Sim, porque a mais velha, cria eu, já sabia de tudo. De qualquer forma, eu não poderia fugir de casa. Era financeiramente inviável, e só funcionava nas estórias de Hollywood. Eu precisava de algo mais incisivo, que os afetasse de forma contundente, com base na razão, ao contrário de todo drama e histerismo controlado do pensamento daquele momento. Isso tudo porque eu sentia minha honra maculada e precisava, de alguma forma, colocar toda a minha decepção para fora. Que exagero, penso eu sobre isso hoje em dia, mas aquele era meu momento de revolução. Eu pensei então numa solução drástica. Juro. Pensei em questioná-los também sobre a existência de Deus, que eu sabia ser questão muito mais séria e velada que a de Papai Noel. Mas desisti. Eu sempre soube, ou julgava saber dos meus limites, e principalmente, dos de meus pais e seus credos.
O Papai Noel sempre chegava na época mais feliz do ano. Ele nos trazia presentes. Ele era o símbolo do nosso exemplo como boas filhas, boas estudantes, boas pessoas. O Papai Noel nos reconhecia como gente do bem, como gente abençoada, ou o que quer que isso significasse. Ele também levava presente aos pobres, conforme narravam as belíssimas canções da época, da sempre e eterna noite feliz. Ele fazia a nossa casa brilhar com pequenos enfeites que eram sorrateiramente espalhados pelo ambiente ainda durante o advento. Ele unia a família na oração, na troca de presentes, na ceia, nos telefonemas aos familiares distantes, na música entoada pelos nossos instrumentos ao menino Jesus, e sempre fazia do fim de ano uma época de trocas e bons fluidos. Papai Noel era o meu herói.
E depois de um tempo a gente entende melhor o que significa um herói, e o que significa perdê-lo. Em termos, eu tive sorte, porque meu herói nem era de verdade (não?!). Mas há quem tenha heróis reais, de carne e osso, e eles nem sempre são perfeitos. Eles nos decepcionam, eles acabam com nossos ideais e nos mostram que a realidade é mais real que os sonhos, e que nem sempre todos ganham presentes por serem pessoas do bem, e que às vezes, mesmo quem é do bem, nada recebe em troca, ou ainda que não se trate de troca, nem sempre se ganha.
E lá se vai mais um herói, seja de pedra, de carne e osso, ou de areia, levado pelo vento. E lá se desconstrói mais um ideal, com base na mais sólida realidade. Entretanto, eu não me surpreenderia se, em algum momento, em algum lugar, eu avistasse alguma placa com os seguintes dizeres: “procura-se um herói”. Nem que fosse para alimentar a alma dos pequeninos. Ou a ânsia dos grandes.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Sobre lucidez e demência
A lucidez na terceira idade é, ao mesmo tempo, possibilidade de garantia de sobrevivência digna em sociedade e maneira peculiar de se desvendar os absurdos da condição humana, que constituem verdades felizmente desconhecidas àqueles que demonstram sinais de demência. Lucidez e demência não são, entretanto, estados elegíveis, senão imposição da nossa própria natureza.
Sobre o tempo II - diálogos insubsistentes
- Então, quanto tempo tenho?
- Pelos nossos cálculos, o senhor tem, aproximadamente, 9 mes..
- O quê?!? Falas de meses, tipo.. dias, e horas? Oh, por favor, meu tempo eu meço em xícaras de café. E então, quantas me restam? Vamos lá, quantas? E ainda: são cheias, meio cheias, meio vazias... ?
- Eu não saberia precisar deste modo, senhor.
- Ora, mas que absurdo! Quem foi que inventou esse teu tempo?! E por que o segues?
- Foi o senhor que inventou.
- O senhor lá, o Senhor, ou o senhor ‘eu’?
- O senhor.
- .... hm... e quando foi isso?
- Eu não saberia precisar, senhor.
- Não estamos sabendo precisar coisa alguma por aqui....
- ... é o tempo, senhor.
- Tempo?!?! Que tempo? Ah, por favor, poupe-me.
- ...
- Mas então, me diz, quantas xícaras?
- QUERES XÍCARAS? NADA DE XÍCARAS, SENHOR! TERÁS COPOS. OU MELHOR: CANECOS! PENSANDO BEM, SERÃO BARRIS!!
- Barris de café? Ah, mas assim tu me..
- Não, senhor. Barris de tempo..
- Ah... ok... E... o que farei com eles?
- Tomarás café, presumo.
- Em barris?
- Não, senhor. No tempo.
- Fiquei confuso..
- Olha, isso já está ficando cansativo. Façamos assim: o senhor continua tomando o seu café, e esquece o tempo.
- Não. Eu não poderia. Impossível. O tempo é meu. É o MEU tempo!
- Então não me pergunte quanto tempo tem...
Sobre o tempo I
Sentia o passar, o pesar
Como quem fecha os cadernos de um jornal.
Olha em direção ao nada,
E suspira a ausência de um evento por segundo
Que não fale de dor ou de um fato,
Assim, banal.
Ouvia o tempo pela metade
Acelerado, ou em parte para esquecer.
Tempo de palavras vãs,
Esparsas, sozinhas, amontoadas,
Meias palavras.
Contentava-se com os gestos
Breves, sinceros, envoltos em cores,
Brilhos, contrastes, num tempo que pára.
Tempo que espera. Tempo que é justo.
Tempo que não se faz tempo quando estanca.
Transforma-se em cena,
Lembrança fotografada num olhar
Que já foi senhor do tempo,
Que já esquece o que viu,
E o faz para viver mais.
Vive de paz, de tempo,
De memória e palavras.
Finge que esquece.
Finge que não se submete ao tempo
Para não dar ao tempo o poder de meias palavras,
Meias vidas...
Tempo, assim, pela metade.
Sobre mim
Instada a manifestar-se acerca de sua personalidade, afirma que nasceu numa segunda-feira, segundo o calendário. Mau humor provável e agitação suficientemente controlada, segundo seu pai. Só o tempo haveria de comprovar, ou não, as previsões do profeta.
A respeito de sua infância, diz que não gostava de bico, nem de mamadeira, porém agarrava-se ao peito da mãe. Esvaía-se dos braços de quem desejava lhe prender no colo. Não se recorda precisamente destas passagens, porém acredita em sua veracidade, afinal, mãe não mente.
Foi uma criança – interrompe a afirmativa questionando-se: ‘fui’?! – amada, comportada, ciumenta e engraçada. Não poupava caretas. Algumas foram abolidas, enquanto outras se mantiveram. Freud, ou mesmo Darwin, devem ter alguma explicação.
Refere sinais de adolescência tardia, com manifestações até o presente momento. Afirma, entretanto, que não suporta adolescentes em bando, pois reconhece aí uma amostra iminente de comportamento psicopático.
Refere, ainda, surtos momentâneos de ansiedade sem motivo suficientemente embasado, do que decorre a possibilidade de um gesto autofágico, poética e literalmente falando. Abre aspas: “eu consigo detonar unhas e cutículas de modo excepcional”.
Informa que deseja o bem para si e para os demais, contanto que não se aproveitem de sua nobreza, tal qual Chapolin Colorado.
Aprecia a paz de espírito, mas gosta de procurar cabelo em ovo, e ainda pensar no penteado. Gosta de ter do que gostar e em quê pensar. O ócio lhe faz mal, e quanto mais atividades a desenvolver, melhor. Daí a possibilidade de viver num mundo fantástico, imaginário, porém com os pés no chão.
Afirma, com certo pesar, que ainda acredita no ser humano. Já magoou e já foi magoada, mas tem certeza de que a vida que não oferece riscos está longe de ser a ideal.
Sonha com independência e estabilidade financeira e emocional. Busca novidades. O comum não lhe atrai. O sem graça não desperta qualquer sentimento. O banal deixa a vida cinza, e o que ela busca é ter todas as cores, sabores, sons, perfumes e tudo aquilo que desperta os sentidos e as sensações.
Aprecia unhas e sobrancelhas femininas bem feitas, mas prende a concentração nos atributos masculinos.
Acredita na verdade e na justiça, mesmo sabendo que esses são conceitos relativos e, portanto, quase que inalcançáveis. Afirma que tal busca, entre outras, reflete um superego atuante, porém o ID continua persistente, sonhando em alcançar o seu lugar ao sol, para o bom equilíbrio físico e mental.
Para finalizar, fazendo referência à citação de Malito em relação a um terceiro, diz que não confia em ninguém que fale sobre si na terceira pessoa do singular.
Mas se ela confia em si, este seria um caso de contradição atuante? Definitivamente sim. Sem sombra de dúvidas.
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