quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Sobre "nós, efêmeros"

Olha-me nos olhos,
E terei em ti minha morada.
Pois em tuas breves passagens
Eternizarei minha existência.

Ver-te-ás em mim,
E eu, em ti.
E nesse espelho d'alma
Terás me lido o suficiente
Para que não passemos despercebidos
Eu, por ti. Tu, por mim.

E haverei de ficar aqui,
Sempre à tua espera,
Até que outro, não sem pesar,
Finalmente ocupe o meu lugar.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Sobre lembranças e agendas

Todos os anos, no Natal, ganhávamos do papai (Noel) uma agenda, que seria utilizada no ano seguinte. Não eram agendas propriamente ditas, pois na maioria das vezes, os cadernos de anotações sem datas eram os mais bonitos e ilustrados e, portanto, os escolhidos. No mais, quando eram, de fato, agendas, marcávamos as datas inesquecíveis com um círculo na volta: aniversário dos membros do núcleo familiar, além do dia de Natal e Páscoa, sinônimo de festa, chocolate e presentes.

O HD com considerável espaço disponível na memória, típico de infâncias dignas, guardava datas de aniversário, marcas e modelos de veículos automotores e outras tantas coisas obsoletas. Eu decorei, na época, a data do meu batizado, e nunca mais esqueci, assim como o telefone fixo da casa da minha melhor amiga da primeira série do ensino fundamental.

As agendas eram desnecessárias. O compromisso era brincadeira com os amigos, as aulas de teclado, flauta, violino, conjunto instrumental, que ocorriam nas sagradas tardes durante a semana.

As agendas serviam para colar adesivos, figurinhas, adesivos d’água, ou imitar as frases de efeito encontradas na agenda da irmã mais velha, então adolescente, pouco importando o significado delas.
Com o tempo, as agendas se tornaram diários, com relatos ingênuos de paixões platônicas e ciúmes não justificáveis; passagens de músicas de Renato Russo, e outras frases de efeito que começavam a fazer sentido.

Mas ainda não havia compromisso ou responsabilidade. As datas comemorativas eram as de aniversário, mas incluía-se a data em que houve uma primeira troca de olhar potencial com o menino adorável.

Em dado momento, comecei a registrar os compromissos diretamente na folha de calendário, pois os diários já demandavam muito trabalho. Provas de proficiência, exames médicos, apresentações do grupo vocal, da orquestra, e por aí iam os compromissos. Os aniversários eram sempre lembrados, motivo óbvio que, por assim ser, não mais eram marcados na agenda ou no calendário, a menos que houvesse sido organizada uma festa ou coisa do tipo.

A agenda voltou à ativa na época da faculdade. Muitos trabalhos, provas, diversas datas que não poderiam ser esquecidas. E hoje, no trabalho, utilizo a agenda para não me esquecer de realizar esta ou aquela atividade, ou para lembrar o que ficou pendente, e qual a data para uma possível resolução.

As datas de aniversário continuam inesquecíveis. Não saiu do HD o telefone da melhor amiga de 1990, ou a data do meu batizado. Depois de já passados mais de 10 anos de convivência, tento guardar os aniversários dos cunhados, mas acabo lembrando só do mês, e chuto uma data com margem de erro de quatro dias para mais ou para menos... Ali, por ali. Por outro lado, alguns períodos são lembrados mensalmente, pois invariavelmente seu médico ginecologista haverá de lhe perguntar sobre ele.

Mas também há datas e dias que eu não desejei que existissem, e mesmo que eu não as tenha marcado com um círculo na agenda, elas se sobressaem: são os dias de perda, de lembrança, de saudade. Dias de lembrar o toque dos braços, em omoplatas, em apertados abraços. Dias de palavras gentis, sorrisos amáveis e conselhos sábios. Dias que encerraram ciclos e iniciaram outros. Dias que mal iniciaram na madrugada, com telefonemas desconcertantes e, apesar de seguirem ensolarados, sobre os mesmos pairam cinzas nuvens até hoje.

Esqueço-me de pagar a mensalidade da escola do meu filho, e no dia seguinte, já são mais 10 reais de multa. Já quando me esqueço de pagar a fatura de telefone celular, não me repreendo tanto. Essas contas, dívidas, estão vivas, mas delas me esqueço. Por outro lado, me lembro, sem esquecer, dos que não estão mais entre nós, talvez reforçando o sentido da vida - esta sempre tão frágil, tão efêmera.

Não são as datas que importam, mas o que elas significam. Lembremo-nos da vida, do amor, dos sentimentos que permanecem, independentemente da condição existencial. Lembremo-nos dos aniversários como a dádiva da vida, e da morte como o presente que, por assim ser, virou passado, sem, no entanto, duvidar da sua existência, que marcou vidas, agendas, e virou lembrança. 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Sobre a partida, ou volta pra casa



Azuis e brilhantes como nunca: assim se revelaram seus olhos um dia antes do derradeiro. Antes escondidos atrás de óculos, finalmente puderam abandonar este objeto ora obsoleto para mostrar toda a vida que se escondia ali dentro, apesar do corpo já comprometido.

O pai queria voltar pra casa, mas sabia que não seria naquele dia. Então na madrugada que se seguiu foi conhecer o lado de lá, ou, como dizem outros, finalmente voltou pra casa.

Adeus confusão mental. Adeus cirurgias, procedimentos, idas e vindas de hospital e UTI, septicemia, infecções, pneumopatia, neoplasia no sistema nervoso central e todas essas e outras expressões que despertaram horror nos últimos 3 meses.

Mas aqueles olhos vivos me enganaram. Pensei que deixariam vivê-lo um tanto mais, apesar do tratamento invasivo que logo teria de encarar. Pois foram 80 anos muito bem vividos, apesar dos últimos 3 meses.

Ouvi, então, quando recebemos familiares e amigos para a despedida, que sempre o viam fazendo seu exercício físico diário: as caminhadas nas ruas da cidade, sempre focado, mas com o sorriso recíproco a quem por ele passava.

O pai tinha suas obsessões com arquivos de fotos, músicas, árvore genealógica e verificação da pressão arterial.

Marido, pai, avô, doce, bondoso, honesto, responsável e de conduta exemplar, cuja oportunidade que recebemos de com ele conviver só podemos agradecer.

No Natal não vai mais ter presépio feito em casinha de madeira com luz e cartões de Feliz Natal com escrita caligráfica impecável. Aos domingos, Joaquim não vai mais esperar no portão de casa para receber o "Dadito".

O queridão já deixou saudade.

O queridão festejou seus 80 anos no último dia 6 de dezembro, no hospital, agradecido por Deus ter estado ao lado dele e ele ter vencido a cirurgia para retirada de um tumor no cérebro. O pai conseguiu passar pelo mês de dezembro, seu mês preferido. Ele conseguiu ver, ouvir e falar com a esposa e as filhas um dia antes da partida.

Tem muito amor e carinho aqui, agora parecendo perdido, que não sabe pra onde vai. Por enquanto tá na saudade.

Dia 12 de janeiro de 2016 começou triste, já na madrugada, e vimos o dia nascer na Capela. E tinha brilho no céu. Digam o que quiserem: planeta, estrela ou satélite. Para mim, era meu pai, que levou junto o brilho dos olhos lá pra cima.