terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Sobre a partida, ou volta pra casa
Azuis e brilhantes como nunca: assim se revelaram seus olhos um dia antes do derradeiro. Antes escondidos atrás de óculos, finalmente puderam abandonar este objeto ora obsoleto para mostrar toda a vida que se escondia ali dentro, apesar do corpo já comprometido.
O pai queria voltar pra casa, mas sabia que não seria naquele dia. Então na madrugada que se seguiu foi conhecer o lado de lá, ou, como dizem outros, finalmente voltou pra casa.
Adeus confusão mental. Adeus cirurgias, procedimentos, idas e vindas de hospital e UTI, septicemia, infecções, pneumopatia, neoplasia no sistema nervoso central e todas essas e outras expressões que despertaram horror nos últimos 3 meses.
Mas aqueles olhos vivos me enganaram. Pensei que deixariam vivê-lo um tanto mais, apesar do tratamento invasivo que logo teria de encarar. Pois foram 80 anos muito bem vividos, apesar dos últimos 3 meses.
Ouvi, então, quando recebemos familiares e amigos para a despedida, que sempre o viam fazendo seu exercício físico diário: as caminhadas nas ruas da cidade, sempre focado, mas com o sorriso recíproco a quem por ele passava.
O pai tinha suas obsessões com arquivos de fotos, músicas, árvore genealógica e verificação da pressão arterial.
Marido, pai, avô, doce, bondoso, honesto, responsável e de conduta exemplar, cuja oportunidade que recebemos de com ele conviver só podemos agradecer.
No Natal não vai mais ter presépio feito em casinha de madeira com luz e cartões de Feliz Natal com escrita caligráfica impecável. Aos domingos, Joaquim não vai mais esperar no portão de casa para receber o "Dadito".
O queridão já deixou saudade.
O queridão festejou seus 80 anos no último dia 6 de dezembro, no hospital, agradecido por Deus ter estado ao lado dele e ele ter vencido a cirurgia para retirada de um tumor no cérebro. O pai conseguiu passar pelo mês de dezembro, seu mês preferido. Ele conseguiu ver, ouvir e falar com a esposa e as filhas um dia antes da partida.
Tem muito amor e carinho aqui, agora parecendo perdido, que não sabe pra onde vai. Por enquanto tá na saudade.
Dia 12 de janeiro de 2016 começou triste, já na madrugada, e vimos o dia nascer na Capela. E tinha brilho no céu. Digam o que quiserem: planeta, estrela ou satélite. Para mim, era meu pai, que levou junto o brilho dos olhos lá pra cima.
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