segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sobre a busca

Reza a lenda que, quando o estrangeiro chegou à cidade, o caos já havia se estabelecido. Haviam dito-lhe, porém, que não fora assim nos tempos de outrora, quando reinava a paz, a tranquilidade, a organização, e de fato, todos estavam muito bem acomodados. Não havia um "ai" sem motivos, tampouco motivos sem leis, ainda que pessoais. Era uma sociedade estranha, e nunca ninguém havia duvidado disso, já que a razão poucas vezes dava as caras por lá e, sendo assim, seu perfil jamais haveria de ser questionado. Mas eis que uma inquietação pairou sob a cidade por aqueles dias, ninguém sabe como, nem por quê. O estrangeiro, sentindo a movimentação aparentemente anormal, passou a observar os passos e as pessoas, o tempo e a temperatura, os recônditos e os livros abertos. Verificou uma insaciedade, uma busca atordoada, uma corrida contra o tempo, e mais outras milhas de observações que anotou em um caderno antigo. E as pessoas, já insones e justificadamente insanas, iam de um lado para o outro, sem saber ao certo para onde ir. Até o movimento das folhas de uma árvore mirradinha, ali, no centro daquela muvuca, era mais lógico. Caixas novas e antigas, todas elas foram abertas, revistadas ao avesso, e nada. Também foram explorados os cantos de todas as casas, jardins, do que quer que fosse, e o ar esperançoso que se mantinha a cada procura transmutava-se em mais uma desolação. Pessoas foram interpeladas em busca de respostas, mas nada foi resolvido. Porém, antes que as pessoas desistissem, ou então decidissem por esquecer da procura, o estrangeiro perguntou, finalmente, a um morador que passava por ali, apressado, o porquê de toda aquela movimentação, e o que buscavam, afinal. Em duas palavras inseridas numa frase exclamativa e ao mesmo tempo reflexiva, o morador resumiu a ópera, respondendo-lhe: "um sentido!...".

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