sábado, 30 de outubro de 2010

Sobre a otimização de recursos

Noutro dia mesmo estávamos a nos questionar sobre o rumo que as coisas haviam tomado. Perguntávamos como era possível que a mais linda das relações tivesse um final como aquele, banal, para dizer o mínimo.

Eu nunca havia duvidado do amor entre os dois, mas me preocupava a insegurança de um, que, justamente pela carga eficacial de sua insegurança, era capaz de criar situações arriscadas, tanto para si quanto para a relação na qual se inseria. Mas eu, como há pouco havia descoberto que mais se ajuda quando menos se interfere na relação alheia, resolvi me calar. Era melhor que cada um soubesse qual a melhor forma de amar. E assim foi.

Noutro dia estava eu numa dessas estações de trem, típicas por seus odores de pães de queijo e cigarros acesos, cuja fumaça insiste em continuar no ar, criando aquelas formas quase indefinidas, que seriam lindas se não fossem prejudiciais. Em meio a escadas rolantes de corrimão passado, lembrei-me do dia em que passei junto do casal, de como fui acolhida no espaço mais íntimo daqueles dois. Um deles me recebeu na estação, enquanto o outro terminava o jantar para me receber. Não me lembro da música que tocava quando cheguei à residência, mas lembro que o espumante brindou ao que seria a minha primeira saída noturna na Capital do Estado. Levaram-me para uma danceteria de diversidade cultural conhecida. Foi quando descobri que caminhar, de madrugada, pela Capital, não precisava ser perigoso, mas obrigatoriamente divertido.

Enfim, todos esses detalhes talvez tenham me ajudado nas associações que fiz, entre o casal, o local, as circunstâncias e aquilo que chamam de amor.

Parece que não estão mais juntos. Um deles jura que o final foi banal, e que o relacionamento longe estava de ser caracterizado desta forma, mas foi assim que terminou. E foi na estação de trem que voltei a sentir o vazio característico deste tipo de situação. Eu já passei por um vazio que me ocupou integralmente, e volta e meia me forço a recordar como era, sabe-se lá por quê. Mas a dor me tomou quando pensei no casal, e no vazio que provavelmente um deles ainda sentia. Creio que estações de trem proporcionam essa sensação, de quem vai e quem fica. Daí a minha lembrança de quem era, foi, voltou, ficou, e todos esses verbos dentre o ser e o estar que nos minimizam a simples mortais, despidos de vaidade, que nos fazem desejar a mais simples das vidas para ter o melhor dos afetos. É o que chamo, carinhosamente, de otimização de recursos.

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