quarta-feira, 30 de maio de 2012

Sobre a ceia

Não era exatamente um encontro. Ambos já haviam estado ali, por diversas vezes, saciando a fome. A avenida, iluminada e movimentada, criava uma luminosidade perfeita para a ceia. Ali, como em toda e qualquer cidade metropolitana que se preze, era cada um por si e todos contra todos, de modo que, como todo início de relação, eles não estavam nem um pouco preocupados com as pessoas à volta.

Possuíam rotinas semelhantes, mas nada sabiam um do outro. Era certo, no entanto, que o encontro havia sido naturalmente planejado. Cada um carregava uma bolsa, muito particular, mais parecida com uma sacola, e nela levavam o mundo. Iriam a qualquer lugar com aquela bolsa, afinal, seriam as típicas pessoas desprendidas das coisas do mundo.

Ao mesmo tempo, estavam tão fascinados e obcecados pelas coisas alheias e que já não pertenciam a mais ninguém, que passavam boa parte do tempo à procura delas, ou de algo mais.

Certo dia, um observador, que passou despercebido, analisou o comportamento de ambos. Ela, de cabelos nem tão compridos, mas presos e não tingidos, com boa postura e conduta objetiva, rapidamente optava por um dos itens do cardápio. O outro, um senhor de meia idade, levemente descuidado da apresentação, passava tempo analisando os itens, tirando pequenas provas das novidades que lhe eram oferecidas. Por diversas vezes, nada escolheu, e seguiu seu rumo, incerto.

Mas ali, naquele momento, eram os dois, compartilhando o que ninguém mais possuía, o que não era de mais ninguém. Compartilharam a solidão, o rumo incerto, o olhar sem olhar dos outros e o que estes haviam deixado: os restos da fartura do fim de semana, numa sacola plástica, mais os restos plásticos de um recipiente de bebida que, de repente, alguma dignidade poderá trazer.

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