Das manias de João, a de simetria era a que mais demandava atenção. Os móveis da humilde casa haviam sido metodicamente escolhidos, em si, e no local que ocupavam na casa. João evitava espelhos, já que não suportava a assimetria do rosto. No entanto, em relação às coisas sobre as quais mantinha o controle, desenvolvia a simetria com arte.
Diziam os colegas de trabalho, que ninguém mais possuía maior controle sobre a situação da segurança da empresa que João, que trabalhava como vigilante noturno na área externa há mais de cinco anos. Afinal, ele sempre conseguia enxergar o que os outros não viam, e se colocava sempre em local estratégico, a fim de visualizar as situações com clareza, mesmo que isso significasse não estar no local determinado pelos superiores, pois nada era superior à mania de simetria.
Os colegas eram sabedores da habilidade/deficiência do colega, mas ela só havia começado a atrapalhar há alguns meses. João, que não acreditava em medicação, tornava-se cada dia mais maniático, de forma que a doença poderia prejudicá-lo em suas relações profissionais, já que relações pessoais eram impossíveis e, portanto, inexistentes.
João era feliz em seu trabalho, até então. Passava boa parte do dia dormindo, iniciava a jornada à meia-noite e seguia até às seis. Não tinha veículo próprio, motivo pelo qual utilizava os meios de transporte coletivos. Preferia os lotações, que não tinham cobrador. Desse modo, como era praticamente o único passageiro das viagens daquele horário, conseguia viajar na última poltrona do lado da porta, perfectibilizando, assim, a simetria no veículo: motorista na frente, à esquerda, e passageiro, atrás, à direita. O ideal era que os veículos utilizados por João levassem um número par de pessoas, mas tampouco esse conceito inicial era capaz de manter a sanidade de João. Se por acaso, além do motorista, houvessem dois passageiros sentados no lado do motorista, João, que já visualizava a cena ao entrar no veículo, dava meia volta e tentava o próximo lotação, já que, em hipótese alguma, conseguiria equilibrar os passageiros no lotação estando eles distribuídos daquela maneira. Por este motivo é que costumava sair cedo de casa: não gostava de chegar atrasado, e gostava de estar preparado para eventuais contratempos.
Porém, tudo mudou no dia em que João foi convocado para substituir um colega cuja jornada iniciava às oito. Relutou, remoeu, não quis perder o emprego, resolveu arriscar. Um tremendo desastre. Mesmo saindo muito, mas muito cedo de casa, teve de enfrentar três ônibus diferentes até chegar ao trabalho. No primeiro ônibus, teve problemas com quatro passageiros que se negaram a trocar de lugar para atender às suas necessidades. No segundo, desistiu de pronto ao visualizar o cobrador, localizado no primeiro terço do ônibus, junto do motorista e de mais 4 idosos. Mal sobreviveu ao terceiro transporte. Era um lotação, sem cobrador, que já levava dois passageiros, já muito bem colocados em seus lugares, conforme a previsão de simetria de João, já prevendo onde teria de sentar. Ocorre que, dali para diante, passageiros entraram e saíram, e João teve de ficar pulando de uma poltrona para outra, conseguindo a simpatia dos passageiros, poucos, que atenderam solicitamente aos pedidos de João para que também eles trocassem de lugar. Vinha com papo de segurança no transporte, baseado no equilíbrio dos corpos, uma conversa maluca, que convencia alguns, enquanto a outros, somente servia para início e fim de discussão, de quem não está afim de incomodação antes de chegar ao trabalho. João trocou de lugar umas sete vezes, aproximadamente. Chegou no trabalho mentalmente cansado, julgando não ter condições de trabalhar decentemente. João era o único vigilante daquele horário naquele dia. No entanto, como obrigação, prestou brilhantemente seus serviços.
Porém, ao final da jornada, deu-se conta de um detalhe que provocou-lhe um surto: não esteve sozinho naquela manhã, e portanto, não conseguiu controlar a simetria naquelas últimas horas. Fora acompanhado do sol, e logo, de sua sombra, que não lhe abandonou, e também não lhe obedeceu as regras de simetria. Deprimiu-se, o João. Havia perdido o controle da situação. Pediu demissão.
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