Morei em um apartamento, certa vez, e as condições eram precárias. Não as do apartamento, mas as minhas. O salário pagava o aluguel, e o resto eu guardava - sabe-se lá para quê. Mas era um resto em seu sentido mais estrito, se é que me entendem. Vez ou outra, ou teria sido uma vez mesmo, após 3 meses de serviço, complementei meu roupeiro: uma blusa de manga longa, e outra, de manga curta.
Mas a grande questão era: eu não tinha internet.
Eu tinha saído da casa de meus pais, onde havia cama, comida, roupa lavada e internet, e tinha me mudado para um apartamento cuja máquina de lavar carecia de instalação decente; a comida, só aparecia, por mágica, após uma ida ao supermercado; a cama ainda era apenas um colchão inflável abraçado ao chão; e a internet.. bom, a internet tinha seus momentos: momentos em que o sinal do vizinho aparecia lindamente na lista de conexões da rede sem fio, mas sempre exigindo uma maldita senha.
Viciados em internet bateriam à porta do vizinho e, por gentileza, solicitariam a senha de acesso à rede. Os menos viciados, dotados de razão e noção, apenas pensariam nisso, e mais tarde publicariam a feliz ideia num blog, só como argumento de entrelinhas.
Eu não conhecia os vizinhos. Sabia, por outros, da tia que ficava cuidando o tempo que os visitantes demoravam na vaga do estacionamento do prédio, para relembrar ao porteiro que o prazo máximo era de 30 minutos. Considerando a atividade fiscal da tia, eu diria que ela era feliz em sua vida, cuidando da vida dos outros. Tinha o outro, que era uma rapaz novo, cuja esposa estava tratando um câncer, mas que a vida continuava sendo boa para eles, pois o sorriso continuava estampado no rosto da família. E tinha um outro que havia sido meu colega no Ensino Médio, mas como acabei perdendo contato com ele, o rapaz passou a ser um vizinho, como qualquer outro dali: praticamente um desconhecido.
Na época em que morava com meus pais, numa casa, nós tínhamos vizinhos. Era um casal com 4 filhas, das quais apenas 2 continuavam morando ali. A idade delas batia com a nossa: minha e de minha irmã. As casas eram divididas por um muro baixo, com cerca em cima. Não tínhamos o hábito de visitá-los, tampouco eles a nós, mas as brincadeiras com as vizinhas se davam ali, na divisa, mesmo com a cerca e o muro entre nós. Jogávamos vôlei, com bola ou com as laranjas caídas da nossa árvore, e a cerca servia de rede. Jogávamos dorminhoco, e um quadro negro pequeno servia de mesa, já que, entre o muro e a cerca, havia um vão, pelo qual era possível passar as cartas. Jogávamos forca, já que a cerca não impedia nem a visão, nem o diálogo. E assim fomos felizes, por um bom período da infância, com as brincadeiras que ocorriam sobre o muro.
Mas nem todos os muros nos possibilitam enxergar além dele. Muro de escola, por exemplo. Na minha escola, lá, a 15 anos atrás, o muro era alto. E branco, o que o fazia parecer ainda mais alto. Eu nunca fui de pular o muro, nem a cerca, se é que me entendem, mas aquele muro tinha uma aura diferente. Ele era tão sólido, tão metricamente quadrado, tão branco que, ao mesmo tempo em que bloqueava qualquer tentativa de acesso, a imaginação voava por cima dele, e ficava vagando pelos ruídos da rua, pelos galhos das árvores da calçada, pelos baques dos sapatos dos pedestres. A diferença entre quem estava do lado de cá, e do lado de lá do muro era esta: nós éramos estudantes, e eles, pedestres, pessoas comuns, que saíam para trabalhar, passear, ou ver o céu azul, do lado de lá do muro branco. Tudo acontecia no lado de lá. A sirene da polícia soava, e a movimentação começava, enquanto que aqui, batia a sineta da mudança de período, e o máximo da movimentação era o toque da sineta para o intervalo, vulgo recreio. Até a chuva soava diferente do lado de lá. Pra cá do muro, as gotas pareciam tão organizadas, alinhadas em pátios e lajes, enquanto que a rua permitia um movimento instável, cheio de nuances. Tudo era tão poético pro lado de lá do muro.
E havia aqueles que curtiam pular o muro. Planejavam durante a manhã como seria a fuga, pelo muro, no último período de aula. Colocavam suas mochilas sobre os sombros e se iam, como imagens de carneirinhos pulando cercas na mente dos insones. E quem presenciava a cena, assistia de camarote à transformação do estudante - terror dos professores - em cidadão, pedestre, andante das ruas. Era apenas mais um entre os demais, mas que tinha realizado corajosamente o sonho de conhecer o outro lado. Não que não conhecesse, mas pulando o muro, o outro lado se tornava bem mais interessante.
Se existisse um muro entre nós, Denise, que fizesse com que cada um estivesse de um lado, eu pularia para o outro lado, só para ficar junto a ti. Lindo texto!!!
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