Naquele dia travou-se um embate,
por fim, pacífico e revelador. Era eu contra uma prostituta. Ao meu lado, um
dos meus melhores amigos; ao lado dela, uma amiga. Eu só estava no lugar e na
hora errados. Ou certos. Como saber?
Pois eu soube. Naquele dia de
verão em que decidi ir num boteco, com meu melhor amigo, comer um pastel, ou
croissant, ou panqueca. Já não lembro. Saí do trabalho, final de tarde, e
resolvemos brindar à vida. Com um doce. Escolhemos uma lancheria que ficava em
frente à praça do centro da cidade. Nos finais de semana, em geral, o local era
frequentado por famílias e jovens casais. Nos dias de semana, por funcionários
das empresas vizinhas. As empresas vizinhas eram gráficas, comércios, um posto
da Brigada Militar e locais de prestação de serviço de prostituição, do mais
humilde ao de maior prestígio da cidade. Assim era.
Quando adentramos o
estabelecimento, não lembro se ali as moças já estavam. Lembro que fizemos o
pedido e, como sempre, atualizamos os assuntos, desde o mais profundo e sentido
ao mais banal e corriqueiro evento do dia. Nossas conversas eram, e sempre
foram, regadas a muito riso. E assim foi. E bastou um olhar para a dupla que
estava sentada ali adiante para que o evento se concretizasse.
Maldita hora em que parei ali.
Maldita a hora em que sorri, e ri, e cruzei meu olhar com o dela. Ela não era a
Julia Roberts em “Uma linda mulher”. Ela era a moça consumidora de álcool e
drogas, magra, com os ossos superiores da bacia à mostra, do short jeans
rasgado, do espírito e da pele sem cor, sem brilho, entregue à vida. Ela era da
vida. E a vida era dela. E eu ria, da minha conversa com Anderson. E ela criou
que eu ria dela.
Iniciou com um fuzilamento pelo
olhar e uma ameaça contra mim. E despejou: “quem tu pensa que é? Tá rindo de
mim? Se acha melhor que eu? Tá te achando com um homem bonito do teu lado? Como
pode? Uma alemoa baixinha. Nariguda e fedorenta. Tá rindo de quê?!”
Hã? Batimento cardíaco
acelerando, e eu pensando: de onde surgiu tudo isso? A moça foi se levantando e
quis vir para cima de mim. Anderson interferiu e disse que chamaria a Brigada,
ao mesmo tempo em que cobrava do proprietário do estabelecimento alguma
providência, visto a surrealidade do quadro. A tensão deve ter levado em torno
de um minuto. Minuto eterno. O proprietário do boteco tentou apaziguar os
ânimos, e convidou as moças a se retirarem. A mais transtornada, convencida
pela santa amiga, tardou para deixar o local, mas se foi. Nós saímos na direção
contrária.
Sim, eu sou ‘alemoa’. Dessas de
origem alemã. Eu não sou fedorenta, exceto quando suo, como qualquer um. Eu não
suava naquele momento. Quer dizer, suava. Frio.
Mas eu sou nariguda. Dessas de origem alemã, mas que o pessoal acha que
é italiana ou judia. Noutro dia, no aniversário do meu avô, quando falávamos
sobre bullying na infância, ou sobre
o melhor ângulo de cada um para aparecer nas fotos, um primo comentou,
consciente e realista, que todos ali passavam pelos mesmos problemas em relação
ao nariz. É de família. Herança minha, reconhecida – e para reconhecer não
precisa muito! – pela prostituta, que apontou (n)o meu nariz.
Já se referiram a mim, pelo que
soube, como aquela loirinha de óculos, ou a baixinha magrinha, ou “aquela guria
que... é engraçado, porque ela é tri nariguda, mas até que é bonita”.
Eu fiz um curso de Libras
recentemente, e descobri que os surdos te dão um nome, uma denominação, e que
eles não costumam ser muito gentis, pois costumam te identificar com uma
característica marcante. No primeiro dia do curso, eu havia feito escova no
cabelo. Fui batizada como a “D” do cabelo liso...
Tá, mas... só um pouquinho: e o
meu nariz? Ninguém viu o meu nariz? Por que não me apelidaram de “D” do nariz
comprido? Por quê?
Então que tenho um caso de amor e
ódio com meu nariz comprido, anguloso e assimétrico. Ele me identifica, e
também nele me reconheço; meu filho o aperta e amassa como se fosse massinha de
modelar, cheio de amor. E eu amo tudo isso. Mas é neste mesmo nariz que evito
pensar quando fico à esquerda, ou à direita, ou de qualquer lado do pessoal
para tirar uma foto; ou quando vejo esses narizes retos, pequenos ou
arrebitados, cheios de delicadeza.
Sim, as insatisfações nossas de cada
dia que, quando apontadas por outro, se tornam (mais) reais. As nossas fraquezas
são nossas, e que ninguém as descubra, sob pena de sermos descobertos.
Por fim, soube, anos depois, que
eu estava onde deveria estar quando dei com as fuças (!) naquela moça. Ela
me descobriu, e me fez descobrir quem era eu. Não a que ria dela, ou a
fedorenta: mas a alemoa nariguda que, apesar de tudo, só queria rir da vida e
de seus percalços. O meu nariz não me define, mas me identifica; ele é apenas
mais uma característica minha. E o trabalho da moça também não a define. No
entanto, foi com aquela denominação do título que me referi a ela até aqui. E assim
a gente vai vivendo, escrevendo e aprendendo.
Baita lição de vida.
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